Diversidade que liberta

A intolerância revela fragilidade da democracia, ausência do estado e faz mal à saúde 
Por Adriano De Lavo[*]

Não é preciso muito esforço para identificar, no cotidiano contemporâneo, as marcas da intolerância. Ataques verbais e físicos a praticantes e lugares sagrados de religiões afro-brasileiras, casos de homofobia que motivam agressões com requintes de crueldade, invisibilidade social e cerceamento de direitos de populações indígenas e quilombolas, preconceito contra negros e criminalização de movimentos e pessoas que lutam pela defesa dos direitos humanos são exemplos de um fenômeno que, infelizmente, tem se tornado cada dia mais comum e atraído a atenção de quem luta pelo respeito à diversidade e efetivação de saúde pública universal, integral e equânime, como preconiza o SUS.

A falta de habilidade ou vont ade em reconhecer e respeitar diferenças em crenças e opiniões tem fomentado a violência e interferido nas relações sociais, de tal modo que já se enxergam reflexos na saúde física e mental das pessoas — não somente nas que são “alvo” de atitudes intolerantes, mas também naquelas que as praticam ou incentivam. Qual a origem deste fenômeno? Quais são as causas de sua ocorrência? Quais as consequências de sua maior frequência para a vida social e a saúde das pessoas? Radis enfrentou o desafio de analisar as raízes e os desdobramentos da intolerância e propor alternativas à violência dos discursos intolerantes, não aber tos ao diálogo e à convivência com a diversidade.

Para o designer e ativista Vitor Suarez, a raiz da intolerância está na dificuldade que alguns indivíduos têm em conviver com as diferenças. Em fevereiro de 2012, quando ainda era estudante, ele testemunhou e foi v ítima de um epis ó dio que recebeu ampla repercussão na mídia e nas redes sociais — quando foi espancado na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio, ao tentar proteger um morador de rua que era agredido por três jovens. Vitor estava com um amigo quando presenciou a agressão. Após pedir aos rapazes que parassem de bater, acabou sendo ele mesmo atacado pelo grupo com golpes e chutes no rosto, que o obrigaram a se submeter a uma complexa cirurgia para reconstrução da face, receber 63 pinos de titânio, 8 placas e uma tela para consolidar as fraturas provocadas por socos e chutes no rosto. “Minha vida mudou completamente”, disse à Radis, lembrando que o episódio serviu para que ele procurasse se envolver mais nas discussões políticas, com o intuito de compreender o que motiva estas e outras atitudes violentas.

Hoje, atuando como ativista em um canal na rede de vídeos YouTube — onde discute temas como violência, reforma política e desmilitarização da polícia — ele avalia que um dos fatores que contribuem para as ações de intolerância são políticas públicas de “limpeza social” e a atuação de setores da sociedade em áreas em que o Estado está ausente. Para Vitor, no caso das pessoas que vivem em situação de rua, estas não são consideradas cidadãs, o que significa que muitas vezes são tratadas como lixo. “Nossa sociedade não as vê como pessoas, por isso defende políticas de higienização”, argumenta. Por outro lado, na ânsia por segurança, grupos sociais protagonizam atos violentos para se proteger da criminalidade e da própria violência, diz o designer, lembrando de um episódio, em 2014, em que jovens da Zona Sul carioca acorrentaram a um poste um rapaz, suspeito de roubar uma bicicleta.

As opiniões de Vitor encontram eco no que diz o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Em seu estudo sobre a globalização, o teórico defende que embora as cidades tenham sido historicamente erguidas para dar proteção às pessoas, hoje estão se tornando cenários de ausência e medo, ambientes propícios à intolerância. Em nome da segurança, os indivíduos estão perdendo o convívio com as diferenças, o que os livra, inclusive, da responsabilidade de contribuir para o bem coletivo. É neste contexto que se legitimam a padronização estética — que exclui obesos e pessoas com deficiência — a intolerância religiosa, os preconceitos raciais ou baseados na orientação sexual, diz Bauman. O diferente passa a representar o perigo e, como tal, deve ser combatido. “A uniformidade alimenta a conformidade e a outra face da conformidade é a intolerância”, adver te o autor.
FRAGILIDADE DEMOCRÁTICA

“A intolerância é uma patologia de todas as instituições de sentido, religiões e até métod os científicos que pretendem ser portadores exclusivos da verdade”, definiu o teólogo Leonardo Boff. Em entrevista à Radis, ele disse que pessoas que enxergam apenas a sua própria verdade tendem a acreditar que os outros não merecem respeito, devendo ser marginalizados, combatidos, perseguidos e eventualmente eliminados. Ele endossa a ideia de que a intolerância nasce e cresce com a incapacidade de se conviver com o diferente — seja alguém de outra classe social, de outra etnia, de outra orientação sexual, de outra religião e até de outro partido político — mas também demonstra a fragilidade da cultura democrática, já que esta parte do pressuposto de que todos são portadores de direitos, gozam de igualdade diante das leis e são participantes da sociedade. A falta de educação política também é um fator que favorece a intolerância, analisa o psicólogo social Fábio Belloni, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). Para o pesquisador, que também é diretor da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme) e integrante do L aboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Laps/Ensp/Fiocruz), a ausência de formação para a cidadania impede que as pessoas conheçam, valorizem e exerçam seus direitos mais básicos, como educação, saúde e moradia, e também aqueles ligados ao exercício de sua singularidade, como liberdade religiosa e livre orientação sexual. Esta carência se reflete em uma sociedade onde indivíduos são determinados a desempenhar papéis sociais definidos, e que não admite a divergência e desvaloriza a diversidade.
ESTRANHAMENTO

Para o sociólogo e cientista político Gustavo Venturi, professor do departamento de Sociologia da USP, a cultura de intolerância tem raízes profundas, mas se torna mais visível no mundo de hoje, devido a uma reação dos setores conservadores a um conjunto de pessoas e direitos que antes não era visível. “A s sociedades nunca foram tão diversificadas, e os contatos, ainda que vir tuais, suscitam temores que vêm de muito antes”, indic a o pesquisador, que vem se dedicando, nos últimos anos, a estudos que avaliam o grau de preconceito dos brasileiros em relação a grupos sociais específicos. Em um dos estudos que coordenou — a pesquisa Diversidade sexual e homofobia no Brasil, intolerância e respeito às diferenças sexuais nos espaços público e privado, lançada em 2008 — os resultados demonstram que quase a metade da [18] RADIS 152 • MAI/ 2015 população brasileira tem preconceito contra algum segmento da população LBGT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). O grau de “aversão” maior entre os entrevistados, no entanto, manifestou-se contra ateus e usuários de drogas (17%), seguidos de perto por garotos de programa e transexuais (10%), travestis (9%), prostitutas, lésbicas, bissexuais e gays (8%). Ele acredita que os resultados da pesquisa ainda podem ser considerados atuais, visto que, em comparação a estudos anteriores, refletem que as mudanças são muito lentas quando se tratam de valores. A partir de sua experiência, Gustavo destacou ainda dois aspectos importantes em relação à intolerância. O primeiro diz respeito ao fato de que há uma diferença entre grupos que são considerados integrantes da sociedade — os quais se tolera, mas não se busca exterminar, como é o caso de negros e indígenas — e aqueles que não são reconhecidos como constituintes da “sociedade ideal” e que, na cabeça dos intolerantes, mereceriam ser excluídos, como os grupos LGBT; a outra, é que a intolerância tem uma relação muito mais estreita com a representação que se faz destes grupos do que com a convivência com eles. “Preconceitos se alimentam da ignorância e do estigma. Ao conhecer os grupos de perto, em sua humanidade, a tendência é o indivíduo desfazer estes estigmas”, explica o pesquisador.
DETERMINANTES INVISÍVEIS

Fábio adverte que a imposição de convenções sociais como comportamentos, credos ou orientação sexual faz com que o sujeito deixe de vivenciar a sua história para viver a história esperada pela sociedade. “Isso causa sofrimento psíquico”, analisa. Sua opinião é compartilhada por Boff, que lembra que a saúde é sempre o equilíbrio das muitas dimensões humanas, responsáveis por gerar uma síntese criadora e aberta, o que, em caso contrário, deixa o caminho livre para patologias. “O ser humano é por natureza um ser de relação. Restringindo suas relações, diminui seu potencial humanizador, que empobrece por falta de trocas e atrofia seus mecanismos de crescimento e auto-enriquecimento”, orienta o teólogo. Fábio aponta que o sofrimento pode se manifestar tanto no corpo físico quanto no psíquico, causando problemas que vão desde uma crise renal a distúrbios como fobias e depressão. Boff adverte, ainda, que tais males não afetam somente quem é alvo de intolerância, mas também aquele que a manifesta: “A desintegração da pessoa pelo fato de rejeitar os outros produz doenças psicossomáticas, como a neurose, a constante irritação, o desconforto diante do meio social”. Outra face não tão visível dos reflexos da intolerância na saúde são situações enfrentadas em outros setores da vida, adverte a ministra Nilma Lino Gomes, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir). Ela lembrou à Radis que há pesquisas que evidenciam os impactos negativos da discriminação racial nas condições socioeconômicas, nas relações de trabalho, no desempenho escolar e na construção da identidade de pessoas negras. A ministra citou como exemplos o Mapa da Violência 2012: a Cor dos Homicídios no Brasil, de Julio Jacobo Waiselfisz, que focaliza a incidência da questão racial na violência letal no Brasil, tomando como base os registros de mortalidade do Ministério da Saúde, e a pesquisa Violência contra a juventude negra no Brasil, do DataSenado. Nilma também colocou que ainda é incipiente a representatividade de negros, mulheres e outros segmentos em espaços de poder na sociedade brasileira e o Congresso Nacional, como demonstram dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que indica uma menor representação de grupos historicamente discriminados, como trabalhadores, negros e negras e representantes LGBT nesta legislatura.
INVESTIR NA CONVIVÊNCIA

Como enfrentar quadro tão adverso? Boff aposta no fortalecimento dos mecanismos democráticos: “A democracia acolhe a convivência dos opostos, pois todos têm direito de ocupar seu espaço social. É pelo diálogo, pelo encontro e pela convivência que se desfazem os preconceitos, se começam a valorizar as diferenças e impedem que estas diferenças sejam entendidas como desigualdades”, avaliou o teólogo.

Nilma acredita que governo e sociedade civil devem investir na conscientização sobre os efeitos nocivos do racismo, de modo que se consiga alterar as representações negativas sobre as pessoas discriminadas, bem como implementar políticas de ações afirmativas que alterem positivamente a posição socioeconômica e cultural destes indivíduos. Ela considera também importante a vigilância da sociedade no sentido de fazer valer a criminalização do racismo, já instituída na Constituição Federal. Gustavo aposta na estratégia política de legitimação da visibilidade dos grupos LGBT contra a naturalização do preconceito. “O que permite a desestabilização destes valores é o conflito”, orienta, alertando que é preciso trazer à tona as desigualdades e discuti-las de modo que todos possam ser tratados dignamente — e isso vale também para o acesso universal e equânime aos serviços de saúde. “Atendimento diferenciado por conta de preconceitos é intolerável no Estado democrático que se pretende laico”, argumenta o pesquisador. Para isso, é preciso investir na formação de profissionais voltada para a defesa dos direitos, de maneira que estas questões sejam problematizadas em vários campos (como os da legislação, da comunicação e da educação) e haja, inclusive, reflexão sobre a representação que se dá a estes grupos: “Boa parte da população não se reconhece no que mostram os meios de comunicação”, avalia.
DIFICULDADE COM O DESCONHECIDO

Vitor aposta no poder da informação e da educação como contrapontos para a intolerância, para que a convivência se torne mais harmônica entre diferentes. Ele explica que, desde criança, foi acostumado pela mãe, que é assistente social, a respeitar os diferentes tipos de pessoa e a enxergar a sua singularidade. Ele lembrou que o senhor que salvou de um linchamento naquela noite não era simplesmente alguém que vivia na rua, mas também um aposentado que enfrentava problemas psicológicos. “Ninguém nasce ou escolhe viver na rua”, sintetizou. Fábio acredita que é preciso investir em educação, de maneira que as pessoas consigam construir um mundo onde não seja mais possível estabelecer papéis determinados — como o pai provedor e a mãe cuidadora, por exemplo — e discutir sobre temas considerados difíceis, como orientação sexual, relações de gênero e religiosidade para que seja possível superar a “dificuldade com o desconhecido”. Ele orienta ainda para o cuidado que os profissionais de saúde devem ter ao atender pessoas vítimas de intolerância, de maneira que não “medicalizem” aquilo que é de outra ordem, que é do comportamento social. “É preciso escutar o usuário para entender o que ele espera da Saúde. Certamente é algo que vai além da farmacologia”, ensina. Boff lembra que um caminho possível para a superação da intolerância é o encontro com as pessoas. “É aí que elas descobrem que a condition humaine é fundamentalmente a mesma: a vontade de amar e de ser amado, a alegria, a tristeza, a saudade da pessoa amada, a indignação face a violência contra inocentes. É o encontro que desmonta os preconceitos e aproxima as pessoas”.
TOLERÂNCIA, CONVIVÊNCIA OU RESPEITO?

Para Fábio, “é preciso banir o conceito de tolerância”, já que esta pressupõe um lugar privilegiado para aquele que tolera. “Se todos somos sujeitos, não cabe a tolerância. O outro me deve respeito, solidariedade, mas não tolerância. São vidas que se respeitam coletivamente”, argumenta. Boff critica o que classifica como “tolerância passiva”, ou seja, “aquela que tolera que o outro continue a existir e a manifestar sua diferença, mas se nega de entrar em contato com ele e assim se enriquecer com a troca”, e aposta na “tolerância ativa”, comportamento em que o sujeito enxerga positivamente a existência do diferente, valoriza seus modos de ser e de pensar, aprende com a convivência e a troca de visões de mundo. Em sua opinião, este tipo de tolerância não demonstra superioridade “e dá conta de que o outro tem o direito de ser o que é e como é, em seus costumes, em sua leitura do mundo”. Gustavo concorda que o conceito de tolerância carrega uma carga negativa, por estar ligado à ideia de imposição e não à de vontade. Ele aposta na valoração da diversidade, como algo que é benéfico para a vida em sociedade. “A convivência é vaga, o respeito trabalha com igualdade recíproca, mas a diversidade enriquece nossa convivência, nossas perspectivas e nos torna seres humanos mais plenos. Ou seja, faz bem à saúde mental e física”.

* Colaborador RADIS COMUNICAÇÃO E SAÚDE, FIOCRUZ.

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