13 de maio: a ressaca continua...

Acredito que no 13 de maio teve festa, das mais lindas, com batucada, gargalhadas, danças e muita esperança que as coisas iam mudar. Mas, no dia seguinte, teve ressaca, essa que carregamos até hoje e ainda não conseguimos curar a cabeça pesada, o corpo mole e a sensação de não saber pra onde ir.




Por Raquel Almeida[*]

“Porque o levante é liberdade

Não é caneta de princesa”

Elis Regina Feitosa

Poema: berimbalando as capoeiranças

13 de Maio foi um estupro! Assim como tantos que sofremos desde antes do navio negreiro. O que mudou para nós? Todo nosso destino já estava traçado pela mão do escravocrata, que tinha reservado para nós a cachaça, as beiradas, os córregos, os barracos de madeirite, escolas sem condições básicas de oferecer educação de qualidade. Estavam reservadas as grades, cadeia pra menor, pra maior, homem e mulher, drogas a rodo vendidas legalmente nas farmácias.

E para as mulheres negras? Longo e árduo caminho nesse pós-abolição. Somos frutos dos estupros nas senzalas, nas ruas do 14 de maio. Afinal, mulher na rua é pra ser abusada mesmo, essa é uma das heranças que vivemos nos dias atuais.

Parimos filhos sem pai, sem identidade. E de lá pra cá nos perguntamos: quem e o que somos? Nós somos os frutos da miscigenação brasileira vendida pra gringo ver; enquanto na nossa pele, a cor do abuso e da confusão, temos marcas da desigualdade estampada.

E só nos damos conta que fazemos parte de um povo historicamente massacrado quando entramos nas unidades da Fundação Casa, presídios, quando passamos pelas ruas e vemos que 99% dos que estão lá são nossos pares, os pardinhos, sem identidade cultural, “sem pai, nem parente”, como dizia a minha avó.

Estão ali, aqui e em qualquer canto do Brasil retratados nas páginas dos cânones da literatura brasileira, esses filhos sem pátria, que não têm nem terão estrutura familiar, porque já foi nos reservado e instituído que não teríamos lugar nessa sociedade, a não ser no que dá lucro ao Estado, nas escolas sem qualidade, na cadeia e no caixão.

No 14 de maio, o dia pós-abolição, acredito eu, o retrato nas ruas era igualzinho os que vejo todos os dias caminhando pela minha quebrada, um preto ou quase preto jogado bêbado numa calçada qualquer, a polícia enquadrando e dando voz de prisão e as mulheres pretas ou as quase pretas caminhando rumo a casa grande pra preparar o café, o almoço e o jantar desses que “canetam” os nossos destinos. Essas mulheres voltam para suas casas, muitas vezes, tendo que bancar um ou mais filhos, quando não, netos e netas frutos de pais negros que não tiveram estrutura pra segurar a onda de ter e ser uma família preta.

As mulheres negras sempre tiveram mercado de trabalho reservado e a coragem que nenhuma “sinhazinha oprimida” teria: a de ir pra rua, seja vendendo quitutes, sendo serviçais em casas grande, cuidando dos filhos das burguesinhas. Ou seja, no pós-abolição esses “trabalhos” pagos, na maioria das vezes, a troco de um teto, eram a fonte que sustentavam uma família negra.

E onde os homens negros estavam? Não tinham opção: continuavam no trabalho escravo ou iam procurar outros meios de sobrevivência. Ta aí onde entrava a estratégia de nos criminalizar. A lei da vadiagem nos garantia um lugarzinho reservado na prisão. O que nos restava buscar era um pedacinho de chão pra poder reconstruir a vida. E nem isso tivemos direito.

Sim, tá aí 127 anos de abolição da escravatura de um povo que lutou pra ser livre e até hoje não vimos nem o vulto da liberdade. Nosso trabalho, ainda é escravo. Quem foi operadora de telemarketing, como eu, sabe bem do que estou falando. A escravidão é moderna: hoje você ganha um salário e gasta o mesmo em impostos que retornam para quem te empregou. Nossos filhos continuam sem estudo e nós, mulheres negras, ainda somos 80% das vítimas de estupros e abusos diversos. Então, eu pergunto: o que mudou para nós Negros 127 anos depois?

Acredito que no 13 de maio teve festa, das mais lindas, com batucada, gargalhadas, danças e muita esperança que as coisas iam mudar. Mas, no dia seguinte, teve ressaca, essa que carregamos até hoje, e ainda não conseguimos curar a cabeça pesada, o corpo mole e a sensação de não saber pra onde ir.

Nossa ressaca coletiva, às vezes, parece que vai passar quando um de nós ingressa numa universidade, ocupa um cargo importante, publica um trabalho, ascende de certa forma na vida, mas daí a ressaca volta com força total quando Amarildos, Claúdias e Eduardos são assassinados pela polícia que é o braço forte do Estado desde a escravidão, com a finalidade de nós exterminar.

A ressaca volta quando é decidido pelos colarinhos brancos que criança deve ir para a prisão aceitando a redução da maioridade penal e a cabeça com ressaca não aguenta tanta pancada.

Esse dia, pra mim, é para ser refletido, como o dia 20 de novembro. Essa data é importante para quem assinou, e toda a sua corja, lembrar mais a dita cuja redentora e não os corpos arrastados e decapitados em praças públicas em busca de liberdade. E se nosso destino já estava traçado, não há o que comemorar. Nossa luta continua!

[*] Raquel Almeida é poeta, ativista cultural, integrante do Coletivo Literário Sarau Elo da Corrente e Coletivo Cultural Esperança Garcia (coletivo de mulheres periféricas e negras ), além de autora do livro “Duas Gerações Sobrevivendo no Gueto” e "Sagrado sopro".

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