A direita vai para o impeachment

O parecer de Ives Gandra Martins, apoiado ridiculamente por Modesto Carvalhosa, é límpido. Não há o que sofismar: a direita vai para o impeachment. 
 
    Flávio Aguiar[*]
 
Derrotada nas urnas, não há mais dúvida nem outro caminho: a direita vai para o impeachment.
 
Prefere uma crise monumental a se preparar melhor, fazer programas mais inteligíveis, dizer a verdade sobre seus propósitos (deter a melhor repartição da renda nacional e voltar à subordinação internacional ao capitalismo central), acreditar mais em expor programas do que em golpes de ocasião (que foi o que sempre fizeram), enfim, a direita continua acreditando em paralisar o Brasil e vender seus recursos e dedos em troca dos aneis de seus privilégios.

O parecer de Ives Gandra Martins, apoiado ridiculamente (citado no artigo) por Modesto Carvalhosa, ex-presidente da Adusp e dirigente da greve de 1979, que assim torra em praça pública seu passado de democrata, é límpido neste sentido. Não há o que sofismar: a direita vai para o impeachment. Vai se basear de novo no “domínio do fato” que importou, solerte e malandramente, de jurista alemão, que denunciou a impertinência da importação. Mas não importa.

Ainda mais quando a direita está animada pela votação que elegeu o deputado Cunha na Câmara de Deputados. E quer ir logo para o impeachment: quanto mais demore no seu propósito, pior será para ela, porque os poderes se recomporão, se aglutinarão, se reacomodarão, etc.

Ou seja, o clima está mais para 54 do que para 64. A direita quer implodir o governo, “legalmente”, e depois contar com as Forças (Forcas?) Armadas para garantir a “transição”.

Faz tempo que no Brasil a direita desistiu da democracia. Ela quer mesmo o ferrolho sobre o povo, sobretudo sobre o povão, e que este fique entregue à sua condição subalterna sem rota nem voto. Política é para os sabichões das elites, os ‘pundits’ (essa turma gosta de ser chamada em anglo-saxão), o resto é mesmo “demagogia”, “populismo”, “clientelismo”. Só o assalto ao Estado que a direita promove é “virtude”.

A questão, no entanto, não é esta. A questão é o que farão as esquerdas. Ficarão abestalhadas, como em 54, apoiando o massacre do governo de Vargas até seu suicídio (a hipótese seria a queda e o novo exílio), ou vão lutar pelo que se conquistou nesta última década? Ficarão no ramerrame de atacar o governo supostamente pela esquerda, fazendo coro com a UDN, enfraquecendo-o, enquanto assistem algo passivamente a ofensiva da direita?

Acho bom as levar em conta: chegamos à batalha decisiva. A direita perdeu no Judiciário: armou tudo, retóricas, acusações, condenações, mas não conseguiu levar. Perdeu nas urnas, e quando tinha certeza de que ia ganhar. As expressões de Merval Pereira e de Aécio Neves na TV foram eloquentes, sem falar no aviãozinho que decolou de S. Paulo vitorioso para chegar em BH derrotado, com os próceres do PSDB: alguns chegaram à desfaçatez de simplesmente a retornar com o rabo (e a cara) entre as pernas. Agora a direita, como no Paraguai, vai apostar no Congresso hostil. A velha mídia vai fazer seu papel esclerosado, mas esperto, de sempre: como em 64, ou 54, criar a impressão de que há uma “comoção nacional” contra o governo, ocultando o apoio popular a este.
 
Como disse antes, o fundamental hoje é o que farão as esquerdas. O PT está meio congelado, arrumando as arestas internas. Não sofreu uma derrota nas eleições, embora tenha visto seu alcance institucional encurtado. Mas o clima de “em tempo de murici cada um cuide de si” está instalado. Só que este clima pode levar à desarticulação e a inércia. A extrema-esquerda parece querer pedir asilo na Grécia, achando que há em Atenas um radicalismo que falta em Brasília, quando na verdade o governo da Syriza (sabiamente) dá todas as mostras de que quer negociar com o establishment hegemônico na União Europeia.

Esta é a hora de cerrar fileiras, não de alimentar dissensões do lado das esquerdas. Vamos falar claro: nós sabemos que a direita, unida, jamais será vencida pela esquerda desunida. Vamos deixar de falastrices e fanfarronadas. Sim, criticar é preciso. Mas de dentro da trincheira em defesa do que o povo brasileiro conquistou. E que perderá, caso a direita consiga seu propósito de subverter a democracia no tapetão, e derrubar o governo legitimamente eleito. Como, por outros meios, fez em 54 e em 64.

* Colunista Carta Maior
 
 

Postagens mais visitadas