Sustentabilidade na Copa: o legado para o Brasil e o mundo

Estádio Mineirão

Quem disse que não haverá legado positivo a ser deixado pela Copa do Mundo no Brasil? As doze arenas construídas nas cidades-sedes do maior evento da Terra são exemplos de sustentabilidade reconhecidos internacionalmente.

Por Afonso Capelas Jr.[*]
 
Desde o uso de concreto reciclado na construção dos estádios, sistemas de reaproveitamento de água das chuvas, a gestão adequada de resíduos sólidos e a adoção de fontes renováveis de energia para iluminação, outras tantas medidas foram adotadas para minimizar os impactos ambientais. Inclusive a compensação de gases de efeito estufa, que provocam mudanças climáticas, emitidos durante todo o evento.

O padrão dessas ações é muito mais do que Fifa. É padrão LEED (Leadership in Energy and Environmental Design). Boa parte das doze arenas brasileiras já recebeu o certificado LEED concedido pelo US Green Building Council (USGBC), entidade máxima de reconhecimento internacional de construções sustentáveis mundo afora.

Em uma classificação que vai do selo LEED Certificado, Prata, Ouro até Platina , a autenticação máxima, assim ficaram as certificações das arenas brasileiras: LEED Prata para o Maracanã (RJ), Fonte Nova (Salvador), Mineirão (Belo Horizonte), Amazônia (Manaus) e Arena Multiuso de Salvador, além de Certificado LEED para o Castelão (Fortaleza). Nada impede que essa classificação melhore ainda mais. Se aperfeiçoarem seus padrões de sustentabilidade, os estádios podem galgar os selos mais nobres. Os demais estádios da Copa também passam por avaliações para receber a certificação LEED.

Hoje o Brasil já é o quinto país com maior número de projetos de edificações sustentáveis do planeta. Temos no país o significativo número de três milhões de metros quadrados brutos de espaços com certificação LEED. As novas arenas contribuíram muito para que essa posição de destaque fosse alcançada.

A LEED é o selo verde supremo para reconhecer construções sustentáveis. Não é fácil conquistá-lo. Os critérios exigidos pela USGBC são rígidos e englobam os parâmetros econômico, social e ambiental que compõem o triple botton line do Desenvolvimento Sustentável. Eles são mensurados em quesitos de liderança, inovação, gestão ambiental e responsabilidade social. Utilizada em 143 países, essa certificação avalia, entre outros, detalhes como a minimização de prejuízos socioambientais no entorno das construções, a economia de água, a utilização de novos materiais e de fontes de energia alternativas.

“À medida que os olhos do mundo caem sobre o Brasil, estes projetos estão demonstrando não só a aplicabilidade e a adaptabilidade do sistema de classificação do LEED no mundo inteiro, mas também a posição de liderança do país na vanguarda do movimento para construções sustentáveis de alta performance”, reconheceu Rick Fedrizzi, CEO e presidente fundador da USGBC, esta semana.

Para atingir o nível de qualidade desejável é preciso muito treinamento do pessoal envolvido na construção e administração das arenas. Segundo o site da Fifa, um workshop foi lançado em agosto do ano passado para melhorar o nível de conhecimento sobre as operações sustentáveis nas arenas. “São noções básicas e bem interessantes de como administrar uma arena de forma sustentável, respeitando as pessoas e a comunidade do entorno do estádio”, disse Lucas Silva, responsável pelo departamento de sustentabilidade da arena Pernambuco.

A arena Fonte Nova, na capital baiana, foi a primeira a receber o selo LEED. Era preciso atingir 40 pontos em requisitos básicos para conquistá-lo. O estádio, entretanto, conseguiu cumprir 53 pontos garantindo o LEED Prata. Contou positivamente o fato de que 100% do concreto do antigo estádio demolido foi reaproveitado na nova construção. O teto inovador que capta água das chuvas, a ventilação e iluminação naturais privilegiadas somaram pontos importantes.

Outros estádios que ainda não receberam a certificação também estão envolvidos em ações sustentáveis. O Mané Garrincha, em Brasília, tem quatro reservatórios para coleta de água das chuvas, garantindo até 40% de economia de água. A Arena Corinthians, em São Paulo, – ou Itaquerão, como também é chamada – pretende cumprir uma missão quase impossível, sugerida pelo arquiteto alemão Werner Sobek, um dos autores do projeto arquitetônico do estádio: colocar em prática o conceito de Triple Zero, onde é preciso zerar o uso de energia, de desperdício e de emissões. Se conseguir, certamente terá um selo LEED. Contudo, ainda falta resolver questões tão simples como a implantação de bicicletários para os torcedores que querem chegar à arena pedalando.

Já a arena Pantanal, em Cuiabá, também se empenha. Além da economia de água e energia, foram plantadas mais de duas mil mudas vegetais em áreas degradadas ao longo do rio Cuiabá, a fim de compensar a retirada de 230 árvores, necessárias para a construção do estádio. Finalmente, as fan fests que pipocam nas capitais-sede também estão coletando todo o lixo produzido para encaminhar à reciclagem. Nas fan fests de Porto Alegre até mesmo o caminhão de coleta desses resíduos é movido a biogás.

Claro que a turma dos deprimidos vai esbravejar lembrando do superfaturamento e do uso de verba pública na construção das arenas. Nem tudo são flores. Todas essas medidas de sustentabilidade, entretanto, servem com um delicioso alento e deixarão, sim, uma herança exemplar a ser seguida em qualquer empreendimento no país. É o nosso fair play ambiental.

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No Diário do Centro do Mundo, jornalista e escritor paulistano especializado em meio ambiente, ecologia e sustentabilidade.

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