A derrota do Brasil. Mais um capítulo da decadência.


Joel Rufino dos Santos[*]

A Copa do Mundo me fez lembrar coisas insólitas, como é próprio das lembranças: "Vede –a pátria ao bretão ajoelhou-se, beijou-lhe os pés, no lodo mergulhou-se! Eles a prostituíram!". É verso de um poeta com então 19 anos de idade, Álvares de Azevedo, escrito há 150 anos, em que pedia anistia para os revolucionários da Praieira (1848-50).

Atualmente, não temos problemas com bretões, como a Argentina. O imperialismo bretão é frio. O norte-americano, depois de se livrar do soviético, arranjou tantos líos (confusão, como dizem os chilenos) que até nos permite enfrentá-lo diplomaticamente, como no caso Snowden.

Quem é, então, nosso bretão, que nos põe de joelhos, prostituindo Estados nacionais? Seu território é um paraíso luminoso sem fronteiras; suas igrejas, as arenas que chamávamos de estádios; seu Deus, a organização. Quem será?

Como nosso futebol chegou a colonizado da Fifa?

Nos primeiros 20 anos, o "football" foi inglês e de ricos, como o squash. Nas duas décadas seguintes, os brasileiros se apaixonaram por ele. Inventaram uma maneira de jogar sem os manuais comprados em lojas –o folder com as regras, as funções de cada posição, o uniforme, a chuteira, a bola, o glossário... Ignorando os manuais, a maneira popular desordenada de levar a bola até o gol driblando (se dizia, significativamente, "comendo") foi um processo cultural autônomo, desses que brotam sem cessar da vida social.

A partir da Revolução de 1930, que pareceu virar tudo de ponta-cabeça, a profissionalização e a federalização dos clubes enquadrariam esse processo. O futebol avançaria, agora, entre duas margens, a do Estado e a do mercado, dominação e lucro. Os saudosistas da fase anterior se chamavam legião porque, como no evangelho, eram muitos –é verdade que tinham saudade do amadorismo, mas não dos campos de terra, pastagens e zonas de agrião.

A nova fase deixou atrás de si esplêndidas ruínas. Fausto, a Maravilha Negra, por exemplo, foi sacrificado e morreu (1939) sem dinheiro e sem glória. Por quê? Sua arte era amadora, boêmia, resistente a táticas –o majestático parece, aliás, característico da arte popular, vide a escultura clássica, o auto medieval, o cordel, o mestre-sala... O triste fim de Fausto, como o de Policarpo Quaresma, não violou a primeira lei da história: ao vencedor, as batatas.

Na fase seguinte, mais ou menos entre 1940 e 1970, sob a república populista, tornamo-nos "os melhores do mundo", "o país do futebol" etc. Populista aqui não na acepção de demagogia, mas como a fórmula de poder carismático que empurrou as massas para dentro do jogo político. Foi bom ser povo naqueles anos: poderosos e pobres confiavam medianamente uns nos outros.

Promiscuidade entre os de cima e os de baixo, mascarando a desigualdade e a violência, nossas melhores tradições. Leônidas, o Diamante Negro, foi o Getúlio Vargas do futebol.

A partir de 1970, começa a morrer o futebol "arte popular", que era da mesma natureza das esculturas de Nhô Caboclo, das alegorias de Fernando Pinto, das sofisticadas cantigas do mar de Caymmi...
O papel do técnico passou a ser o do tirano. Exerce tamanho controle emocional que os jogadores ficam intimidados, não conseguem mudar o jogo dentro de campo.

A primeira massificação do "football" no Brasil lhe dera uma nova qualidade: o drible, a finta, o suingue, o gesto de capoeira, o estilo machadiano de ir, mas não ir. Enquanto isso, a Europa renascia da guerra, a juvenilidade e o mercado feminino criaram o consumo de massa, que restabeleceu a renda média do sistema. Mercado de entretenimento –o disco, o cinema, a roupa, o esporte... É a sua lei, não pode ser violada.

Qualquer juízo de qualidade sobre o futebol que se joga hoje só faz sentido real se considerada essa história. O saudosista, ao ouvir um elogio a Neymar, comenta: "É que você não viu o Pelé!". O pai de Pelé, Dondinho, deve ter dito quando lhe elogiavam o filho: "É que você não viu o Zizinho!". Acabo de assistir à catástrofe Alemanha 7 x 1 Brasil. A saudade mata a gente.

[*] Doutor em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é historiador e escritor

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