Ainda dá tempo de ganharmos com a Copa




Por Roberto Justus[*]

Como todo brasileiro que ama futebol, fiquei emocionado ao ver o Brasil vencer a disputa para sediar a Copa do Mundo. Mas a emoção acabou virando um misto de tristeza e frustração. Tristeza pelos caminhos que a percepção do evento tomou, e frustração pela quebra de expectativas de uma oportunidade única que estamos prestes a perder.

Em nove dias, não vamos resolver os atrasos das obras prometidas pelo governo nem o provável superfaturamento dos gastos. Mas ainda dá tempo para capitalizar em cima do investimento já realizado, evitando que a marca Brasil entre na UTI.

Para isso, temos que encarar os fatos: teremos um legado –menor do que o previsto, mas teremos; o Mundial não é o nosso vilão –infelizmente, a maioria dos nossos problemas tem origem nas urnas; e as manifestações contra a Copa estão prejudicando muito mais o trabalhador, que, assim como o evento, não tem culpa da falta de princípios éticos de alguns políticos.

O grande argumento dos contrários ao Mundial é que esse dinheiro poderia ser usado para coisas mais importantes. A Folha mostrou que os gastos da Copa somam R$ 25,8 bilhões, ou 9% das despesas públicas com educação e 12% com saúde em apenas um ano. Mesmo sendo contra comparações com direitos básicos, alguém acredita que, sem o Mundial, a realidade dos hospitais e escolas públicas seria diferente? Por mais que nos doa, sabemos que não.

Graças ao evento, milhares de empregos foram gerados, obras de infraestrutura aceleradas, aeroportos reformados e o país do futebol, finalmente, ganhou arenas multiuso espetaculares. E o melhor ainda pode estar por vir. Teremos mais de 3,6 milhões de turistas, brasileiros e estrangeiros, circulando pelas cidades-sede, conhecendo nossa diversidade cultural, nossas belezas naturais e, sobretudo, movimentando a economia em R$ 7 bilhões.

Teremos 3,6 bilhões de espectadores no mundo todo conectados com o nosso país. Uma audiência que, arrisco dizer, dificilmente se repetirá nas próximas décadas. O ganho para a imagem dos Estados-sede e para a marca Brasil, em mídia espontânea, deverá ultrapassar alguns bilhões de reais. O impacto dessa visibilidade dependerá de nós. Até agora, as repercussões negativas têm sido assustadoras. Temos que mudar isso e aproveitar a oportunidade única para fazer bonito, dentro e fora das novas arenas.

Então, por que estamos contra o evento? Por que vibramos com as falhas e escândalos como se isso significasse uma redenção? Por que apelamos para o mantra "Imagine na Copa" cada vez que vemos algo errado? Por que não temos a capacidade de sentir orgulho do que foi feito, e não apenas do que pretendemos fazer? Nossas causas não podem ser efêmeras para que nossas conquistas sejam perenes.

Queremos um Brasil honesto e competente, mas não é aproveitando o evento para obter vantagens ocasionais que vamos construir o futuro. Às vésperas da abertura, nada é mais importante para o país do que ampliar seu amor-próprio e pensar grande.

Antes de sentir vergonha, vamos mirar o que ainda podemos fazer. Afinal, temos a honra de sediar uma Copa. Qualquer nação adoraria estar no lugar do Brasil. Vamos resolver questões prioritárias para todos nós nas eleições, em vez de culpar a Copa e paralisar o país em um momento tão importante. Agora é focar o que deu certo e extrair o melhor do que ainda temos pela frente.

Para sediar a Copa, fomos para o ataque e vencemos com a maior alegria. Para ganhar com a Copa, estamos na defesa e aproveitando para tirar vantagem do presente. Por isso, podemos perder uma grande chance de brilhar para o mundo, não apenas como mestres do esporte, mas como donos de nosso próprio destino. Afinal, mesmo que não sediássemos a Copa, isso não significaria que o Brasil estaria melhor.

Há uma grande diferença entre ganhar a Copa e ganhar com a Copa. Para ganhar a Copa, precisamos disputar sete jogos. Para ganhar com a Copa, precisamos ao menos cuidar do que ainda podemos mudar: o futuro da marca Brasil.

*Publicitário, é presidente do Grupo Newcomm e apresentador de televisão

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