William Waack e o American Way of Life para o Brasil


O jornalista e âncora do Jornal da Globo William Waack publicou um artigo no site norte-americano 'The American Interest' com título bastante sintético de suas posições políticas: 'Protestando por tudo (e nada)'. Crítico do Bolsa Família, ele diz que é 'um tanto assustador ver tanta gente aqui no Brasil protestando contra tudo - isto é, contra nada'.


Por Caio Sarack


O jornalista e âncora do Jornal da Globo, William Waack, escreveu na semana passada (19) para o site americano The American Interest um artigo em inglês com título bastante sintético de suas posições políticas: "Protesting Everything (and Nothing)" ('Protestando por tudo (e nada)', em tradução livre).

O âncora é mais conservador que sua emissora de trabalho. Enquanto a Rede Globo tenta subverter o movimento e as manifestações para que o elogio lhe sirva para alguma coisa, o jornalista se ressente com as ruas e se assusta: "It's quite frightening to watch so many people here in Brazil protesting against everything—i.e., against nothing" (É um tanto assustador ver tanta gente aqui no Brasil protestando contra tudo - isto é, contra nada).

É impossível ler o texto de Waack e não sentir seu eterno ressentimento com as mudanças dos últimos 10 anos no Brasil, segundo ele, "que não estão a serviço da realidade e necessidade do brasileiros médio [typical Brazilians]". Para isso, então, é necessário trazer, do o povo americano e seu way of life, o contraste com o povo brasileiro que toma cores de selvagem e insensato.

"Eu talvez deva esclarecer este ponto para o leitor americano, acostumado - como é o povo americano - a respeitar símbolos, sejam eles político, religioso, moral ou social. Pelo menos nos últimos dez anos, os empossados (basicamente, o Partido dos Trabalhadores, ou Workers' Party) têm flertado com transgressões de leis, desprezo de decisões judiciais, e com ocupações e invasões ilegais de terras - sempre em nome da visão onipresente da 'justiça social'".

À mesa com o Tio Sam, William Waack fica à vontade para expressar seu conservadorismo mais originário, os ataques aos programas de redistribuição de renda como o Bolsa Família tomam conta de mais da metade de seu artigo, tidos como "eleitoreiro" e "demagogia". O articulista se esquece dos elogios internacionais e da ONU aos planos de redistribuição brasileiro que retirou nesses últimos dez anos (anos, segundo Waack, obscuros e demagógicos) 40 milhões de pessoas da pobreza extrema e fazendo entrar outros milhões para uma classe que o nosso jornalista já está muito acostumado, a do consumo. Tendo neste avanço suas consequências contraditórias problemáticas, que a própria esquerda tem feito e deve fazer críticas, não é este o teor que Waack traz, é mais provável que ele não queira dividir esta fatia do bolo.

No entanto, não satisfeito com a repulsa ao governo, o jornalista desponta como cientista social:

"Os brasileiros raramente tomaram as ruas em protesto. Em 1984, desafiaram o regime militar e pediram por eleições diretas e democráticas (o país teria que esperar cinco anos para consegui-las). Em 1992, tomaram as ruas contra um presidente corrupto. O senso comum, agora, julga que a corrupção cresceu ainda mais. E cresceu mesmo.

Para que nós, brasileiros, possamos conquistar ainda mais, acredito, temos que lutarmos por um objetivo ambicioso: real reforma do sistema político. Os brasileiros não vêem seus representantes eleitos como realmente representativos, especialmente num tempo que a maioria dos líderes sentem medo de agir de fato (também conhecido como "liderar"). Temos muitos seguidores procurando líderes, e eles simplesmente não os acham. Este é o nosso problema central. Não é pelos vinte centavos"

A tal representatividade nacional deve passar não só pelo aval do investidor (sic) doméstico também pelo aval do investidor (sic) estrangeiro:

"Investidores estrangeiros e domésticos reconhecem no Brasil de hoje uma falta de um conjunto claro de "regras do jogo econômico"- as autoridade perderam qualquer senso de direção estratégica para reformas econômicas, ao invés disso focam apenas em problemas que trarão vantagens eleitorais a curto prazo, como subsídios e bolsas-auxílio", escreve.

Muito se pode dizer sobre se é ou não necessário um líder para as demandas políticas da rua nestas últimas semanas; mas a preocupação de William Waack é de que as manifestações tomem conta deste vácuo de representatividade e coloque o país a serviço - pasmem - do povo. Tal "vácuo", entende o jornalista, não pode ser ocupado pelas demandas diretas (e há tempo deixadas de lado) do povo.

Artigo motivado por Caio Hornstein.


Caio Sarack é estudante de filosofia na USP e estagiário da Carta Maior.

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