"Por uma frente anti-imperialista mundial"


por Georges Gastaud
entrevistado por Rémy Herrera  [*]



Pergunta de Rémy Herrera: Há exactamente um ano foi fundado o Pôle de Renaissance communiste en France. Quais são as origens do PRCF? Qual é a sua identidade?

Resposta de Georges Gastaud : Fundado oficialmente em 18 de Janeiro de 2004, o Pôle de Renaissance communiste en France (PRCF) é o fruto de uma longa maturação ideológica, política e organizacional. Para compreender a sua gênese é preciso retornar à história do Partido Comunista Francês (PCF) nas últimas décadas.

Em meados dos anos 70, militantes do PCF opuseram-se individualmente, e depois de modo cada vez mais coordenado, à deriva social-democrata do PCF. Uma data chave foi o 22º Congresso de 1976 em que, sob a cobertura de concorrer com o Partido Socialista (PS) no terreno eleitoral, a direção do PCF abandonou espetacularmente toda referência à ditadura do proletariado, ou seja, para além da expressão, à concepção de classe do Estado, da democracia e da revolução. Para reconfortar os militantes operários, a direção do partido pretendia então que se tratava de "renovar" o marxismo-leninismo, mas após a ditadura do proletariado foram o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário que foram riscados dos estatutos do PCF no 23º Congresso de 1979.

Na realidade, sob o impacto das campanhas anti-comunistas e anti-soviéticas lancinantes de que a França foi o teatro nos anos 1970, constituíram-se tendências claramente oportunistas e revisionistas (ditas "renovadoras") no interior da direcção do PCF, e esta, apesar de algumas veleidades de resistência, cedeu-lhes cada vez mais terreno. A viragem anti-leninista de 1976, que o filósofo Althusser qualificava muito justamente como "vaga direitista", não permitiu qualquer inovação teórica, não permitiu tão pouco manter o respeito do "aliado" (sic) Mitterrand, que explicava diante do Congresso de Viena da Internacional Socialista que o seu objectivo era tomar três milhões de eleitores ao PCF. Ao contrário, como o demonstrou a experiência histórica que se seguiu, o PCF de Georges Marchais alinhou-se com a velha concepção social-democrata de "a" democracia acima das classes, ou seja, a concepção pré-marxista do Estado, abandonando na passagem a luta pela transformação revolucionária da sociedade em nome de um utópico "avanço democrático passo a passo para o socialismo".

Não só este deslizamento para a direito não permitiu conter o avanço eleitoral do PS em detrimento do PCF como os abandonos teóricos desarmaram ideologicamente os militantes comunistas e as massas populares que, preocupadas unicamente com a vitória da "esquerda", não mais compreendiam a necessidade de uma vanguarda política marxista ligada aos trabalhadores. Ao mesmo tempo, o PCF alinhava-se (não sem reticências) ao "eurocomunismo", então impulsionado por Berlinguer (Partido Comunista Italiano) e Carrilho (Partido Comunista da Espanha). Estes multiplicavam os ataques contra a URSS — o que nada tem a ver com o direito inalienável de todo partido comunista à crítica construtiva — e, paralelamente, sustentavam a construção da Europa capitalista, como indica o vocábulo "eurocomunismo", comunismo em palavras, europeismo de facto.

Mesmo que o PCF se haja por vezes insurgido contra a ruinosa hegemonia de Miterrand, nos anos 1970-1980 — corretamente, mas demasiado tardiamente qualificado por Marchais como "atlantista flamejante" —, ele foi levado em 1981-1984 a entrar em posição de fraqueza no governo Mitterrand-Mauroy, um governo de gestão leal da crise do capitalismo, que esvaziou do seu sentido as medidas progressistas do programa comum da esquerda, praticou um antisovietismo agressivo (Mitterrand apoiou Reagan totalmente na crise dos euromísseis de 1984), em pôs em prática uma verdadeira pedagogia de massa da renúncia à mudança de sociedade. Este mesmo Mitterrand, que nossos camaradas do estrangeiro por vezes idealizam, era um inimigo mefistofélico do comunismo, da maneira, da maneira mais cínica possível, foi o Mitterrand que permitiu igualmente à Frente Nacional de Le Pen (então praticamente grupuscular) aceder aos mídias: tratava-se de por no lugar uma (perigosa) alavanca política de maneira a perturbar a direita clássica, fixar uma parte do eleitorado opular e dar à esquerda recentrada e realinhada com o capitalismo uma identidade "antiracista" de substituição.

O governo com participação comunista de 1981-1984 suprimiu a indexação dos salários aos preços, sob o impulso do eurocrata Delors, adoptou a política deflacionista do "franco forte", que afundou a economia francesa e os salários durante duas décadas em nome da futura moeda única europeia. Os Mitterrand, Mauroy, Fabius e companhia liquidaram a siderurgia lorena, a viticultura do Midi, as minas do Norte, etc, que eram bastiões "vermelhos". Eles promoveram extensamente emissões de antisovietismo "de esquerda" — utilizando renegados do comunismo, como o cantor Yves Montand, ou renegados do esquerdismo, como o "filósofo" exterminista André Glucksmann —, eles "reconciliaram a esquerda com a empresa (nome em código do patronato)", flertaram com o negocismo mais sórdido (o símbolo foi Bernard Tapie, um bufarinheiro "de esquerda", amigo de Mitterrand), se bem que esta "esquerda caviar" tenha duradouramente desgostado uma parte dos assalariados em relação à política e à possibilidade de mudar a sociedade. Eles cavaram o leito do fascista Le Pen, e a criatura midiática de Miterrand não tardou a voar com as suas próprias asas, cultivando o ressentimento popular contra a falsa esquerda no poder.


PERIGO EXTERMINISTA

RH: Referiu-se ao "perigo exterminista". O que é isso? De que maneira se prende com a estratégia utilizada na luta contra o comunismo?

GG: Sobre esse assunto, permito-me recordar que o erro fundamental do "novo pensamento político" de Gorbatchov, antileninista irredutível, é ter pretendido "privilegiar os valores universais da humanidade acima dos interesses da classe do proletariado". Ora, nunca o combate de classe teve um alcance humano tão universal como hoje, pois o imperialismo é actualmente o inimigo "todo-o-terreno" da humanidade: destruição dos laços sociais pelo neoliberalismo, dilapidação dos recursos naturais, sacrificados à obtenção do lucro, transviamento da ciência em todos os domínios, incluindo os das bio-tecnologias, com enormes riscos de perversão mercantil do genoma humano, genocídios dissimulados que se estendem a continentes inteiros, mundialização da guerra, política exterior "nazi-fascista" (Fidel) dos Estados Unidos, corrida redobrada aos armamentos... Notemos, a este propósito, que seria aberrante ver a Europa como um "freio" ao militarismo dos Estados Unidos, quando a constituição da União Europeia tem por objectivo uma "Europa poderosa"...

Recordo que, nos finais da 2ª Guerra Fria (1975-1985), a contra-ofensiva imperialista, cujo objectivo era "vingar a afronta" do Vietname e pôr o socialismo de joelhos, teve por lema uma palavra de ordem declaradamente "exterminista": "antes mortos que vermelhos" (lieber tot, als rot). Nixon declarava, então, abertamente: se os dirigentes russos não mudam o seu sistema comunista, devem ficar a saber que terão a guerra. Em França, o "filósofo" André Glucksmann, que alguns qualificam de "míssil pensante", declarava friamente, deixando para trás um certo Hitler, o Reagan dos anos trinta: "prefiro sucumbir com o meu filho a quem amo e, comigo, a humanidade no seu todo, a imaginá-lo arrastado para uma qualquer Sibéria planetária".

Em suma, face ao "perigo" revolucionário que, até finais dos anos 70, crescia em todo o lado (revoluções em África, América latina, queda dos regimes fascistas na Europa, vitória do povo vietnamita, revolução jacobina no Afeganistão, avanço das forças de esquerda em França e Itália, revolução portuguesa dos cravos...), a contra-ofensiva imperialista encarava, friamente, tomar a humanidade "no seu todo" como refém, para abater o comunismo e o movimento anti-imperialista. Nós esquecemo-nos, geralmente, de constatar que a implantação dos euromísseis dos Estados Unidos data de 1984 e que foi seguida, um ano mais tarde, da chegada ao poder de Gorbatchov, no Kremlin: a cruzada anti-soviética contra o "Império do Mal", com a sua conotação exterminista, teve como resultado a vitória dos capitulacionistas deste novo Munique do gorbatchovismo liquidacionista e, como prêmio mundial, a contra-revolução de 1989-1991.

Antes de Gorbatchov, já Andrei Gromyko, dirigente da diplomacia soviética, começava a recuar ideologicamente perante aquela chantagem aterradora com que a URSS estava confrontada "em tempo real". Assim, os soviéticos renunciaram, sob esta pressão, à definição marxista (e clausewitziana) da guerra como "continuação da política (da luta de classes) por outros meios", declarando que a guerra de exterminação nuclear não tinha conteúdo político, pois prejudicaria, de igual modo, os dois campos e todas as classes. Gorbatchov levou ao extremo esta lógica capitulacionista e o "antes mortos que vermelhos" ocidental transformou-se sob a "catastroika" em "antes não vermelhos que mortos", o que se traduziu numa política soviética de desarmamento unilateral, não só no plano militar, mas também no plano ideológico. Ora, eu lembro que Gorbatchov chegou ao poder em... 1985. Resumindo, o exterminismo, a ameaça permanente de destruição global que o imperialismo fez pesar sobre a humanidade é de natureza política e teve o pior efeito político que existe: a contra-revolução, cujas ondas de choque se traduzem hoje na contra-reforma dos países capitalistas.

RH: Pode-se dizer que a Europa de Maastricht é uma Europa "contra-revolucionária"?

GG: Sim, é uma Europa contra-revolucionária, é o efeito de reação da implosão da Europa socialista, estando Maastricht para a Europa pós-comunista, assim como a Europa de Metternich esteve para a Europa pós-revolucionária. E qualquer um constata agora que não se evita a guerra, apesar do que Nixon disse, abandonando-se o comunismo: a Rússia pós-comunista e neoliberal de Ieltsine e de Putine está hoje cercada por uma nova cortina de ferro de países aderentes à NATO e à União Europeia e por bases dos Estados Unidos, instaladas na Ásia pós-soviética... Portanto, não se combate o exterminismo, vergando-se a ele, pondo em prática, como Gorbatchov, um social-pacifismo capitulacionista que, em nome da paz a qualquer preço, desemboca hoje numa terrível ameaça bélica contra a Rússia, cercada de bases dos Estados Unidos, "revoluções laranja" instigadas, na Geórgia e na Ucrânia, "Drang nach Osten" (a corrida para Leste) da União Europeia imperial e as guerras civis no Cáucaso.

Em contrapartida, no magnífico discurso pronunciado em Camagüey, em 1989, Fidel mantinha-se firme quanto ao conteúdo de classe da guerra e da paz, declarando que " há a paz dos ricos e há a paz dos pobres, há a democracia dos ricos e a democracia dos pobres " e, rematando o seu discurso com um retumbante "socialismo o muerte!". Ora, a pequena Cuba continua lá, viva por ter resistido, enquanto a grande superpotência soviética, nas mãos dos neocapitulacionistas, desabou como um castelo de cartas! Não se luta, pois, contra o exterminismo capitalista, vergando-se a ele, mas resistindo-lhe e enfrentando-o mesmo, fazendo da acção contra o capitalismo exterminador um novo terreno, mundial, de convergência da humanidade progressista contra aqueles que a ameaçam de morte! Conteúdo contra-revolucionário do exterminismo capitalista, conteúdo exterminista da contra-revolução! E, portanto, simetricamente, conteúdo revolucionário da luta anti-exterminista e conteúdo anti-exterminista da luta revolucionária!

Como tentei definir em diferentes textos, já não é só para "mudar a vida" que a humanidade progressista necessita da revolução socialista; é muito simplesmente para salvar a vida e continuar a civilização. Mas esta, e voltaremos ao assunto, não será salva pelo social-pacifismo. O pacifismo não tem sentido para aqueles, nomeadamente no "Terceiro Mundo", cuja vida se parece com uma morte lenta. Para salvar a vida, é preciso mudá-la e "a paz chama-se desenvolvimento".

Esta dialéctica está sintetizada na divisa cubana " socialismo o muerte". Isto não significa apenas, em meu entender, que os revolucionários tenham de morrer – e sobretudo viver – para a revolução; significa também que, sem a derrota do imperialismo, a humanidade está ameaçada de declínio e morte. A civilização afunda-se na nova barbárie neoliberal, encarnada por Bush e a sua Cruella Rice. O homem submerge-se nas " águas gélidas do calculismo egoísta " (Marx). Esta é a aportação universal da revolução cubana na nossa época, a sua significação anti-exterminista, humanista, no sentido combativo que o hino operário de Eugène Pottier reivindica, quando escreve: "a internacional será o género humano".

RH: Que papel especial podem ter os marxistas actuais frente ao perigo exterminista?

GG: O papel dos marxistas é, não o de preferir o "interesse de classe aos valores universais" (obreirismo), nem o inverso (gorbatchovismo), mas o de compreender que o imperialismo, no seu duplo aspecto de contra-revolução e de exterminismo, é o inimigo mortal da humanidade. Nós não temos a eternidade à nossa frente. Este sistema senil, perfeitamente encarnado pelo imbecil integrista e milionário da Casa Branca, está prestes a pôr o planeta a ferro e fogo pelos seus interesses a curto prazo, escudando-se, para isso, atrás de uma ideologia messiânica de morte – as referências constantes ao Apocalipse e à batalha de Armagedão, às Cruzadas, ao "Império do Mal", ao "Eixo do Mal", ao "fogo da liberdade" não são, nem pouco mais ou menos, metáforas.

Aliás, a crise do sistema capitalista só foi um pouco atenuada com a conquista e partilha em curso dos ex-países socialistas da Europa, sob formas novas; a baixa tendencial da taxa de lucro continua presente e o capitalismo monopolista de Estado (CME) tomou a forma paradoxal de um neoliberalismo pluri-continental, onde a livre concorrência visa sobretudo os pequenos, enquanto a concentração capitalista e a intervenção do Estado e dos super-Estados, à base principalmente de encomendas militares, não deixa de se alargar. Muitas pessoas confundem o Estado, sistema público de regulação, com o Estado-Nação, sem verem que o neoliberalismo não é um novo "liberalismo", mas uma forma paradoxal, transnacional e monstruosa do CME. Imaginem do que é capaz, sob o seu verniz de modernidade high tech, este sistema completamente esgotado!

Isto mostra a urgência e a maturidade objectiva do comunismo na nossa época: sem a assunção comum, a nível mundial, dos trabalhos, recursos tecnológicos e naturais, desenvolvimento, proteção do ambiente, investigação científica, a humanidade não irá longe... Portanto, a divisa cubana "socialismo ou morte" significa também: não ao imobilismo, tomemos iniciativas e solidarizemo-nos à escala internacional! Significa: "resistamos!" E não só ao imperialismo, mas ao oportunismo, verdadeiro cavalo de Tróia do capital no movimento operário e anti-imperialista. É impossível deter o processo contra-revolucionário mundial sem combater o oportunismo liquidacionista, é impossível combater o oportunismo, sem que os revolucionários se solidarizem contra ele à escala internacional, o que significa tomar iniciativas para o renascimento do Movimento Comunista Internacional e a Frente Anti-Imperialista Mundial.

Simultaneamente, eu não pretenderia fazer crer que a luta pelo comunismo mundial se basta a si mesma. Se não se lançar concretamente na luta para quebrar as cadeias imperialistas nos seus pontos mais fracos, para defender o socialismo existente e para fazer emergir novas revoluções socialistas, ficará tão encantatória como o apelo estéril do trotskismo à "revolução mundial". Evidentemente, a perspectiva comunista tem de impregnar cada etapa da luta revolucionária e eu considero que a perda dessa perspectiva – o enfraquecimento do Estado encontrava-se, por exemplo, no centro das Teses de Abril de Lenin, desde 1917 – é uma causa de degenerescência do sistema socialista existente.

Pelo contrário, a insistência caracterizadamente comunista de Cuba na educação e na saúde, segundo o princípio comunista " a cada um segundo as suas necessidade ", é um factor permanente de perspectiva do socialismo cubano, apesar das terríveis penúrias artificiais que o ferem. Mas o comunismo não passa de um voto piedoso sem a luta pelo socialismo, pela apropriação social dos meios de produção e pelo poder dos trabalhadores. E isto, paradoxalmente, pressupõe uma atenção mais acentuada que nunca, de Cuba à Venezuela, passando pela França, na defesa sem complexos da "soberania" nacional", que é hoje particularmente atacada pelos fazedores do Império. A "mundialização" nada tem de homogéneo e continua marcada pelo desenvolvimento capitalista desigual, pelas rivalidades explosivas entre o Império estadunidense e os seus rivais em curso, nomeadamente, a União Europeia, constituída em Estado supranacional. E, neste quadro, a divisa leninista " uma cadeia vale o que vale o seu elo mais fraco " permanece actual. Quebrar a cadeia em tal ou tal ponto, caminhar para o socialismo, apoiando-se na reconquista da soberania nacional, purificada de qualquer conotação imperialista, é, ainda mais do que em 1917, sacudir toda a cadeia imperialista. O colosso não é, de certo, um "tigre de papel", mas tem pés de barro! Daí, a importância mundial da resistência, de Caracas a Katmandu, passando por La Paz.

Ao esforçarmo-nos por bater a Constituição Europeia, pôr em causa a integração europeia-imperialista no seu elo mais fraco francês, é afinal de contas o dispositivo continental de dominação capitalista que se quer abalar. Pense-se na formidável activação das lutas que significaria reduzir a uma minoria, pelo sufrágio universal, o parlamento francês de maioria reaccionária e o presidente da República, que, ainda há pouco, sem mandato do povo, assinaram a Constituição Europeia, lançando borda fora os princípios em que assenta a República francesa: laicidade, separação da Igreja e do Estado, unidade e indivisibilidade da República, soberania do povo e da nação, igualdade de todos perante a lei em todo o território, serviços públicos ... É certo que os revolucionários não criam as crises revolucionárias que têm condições objectivas de maturação, enumeradas antes por Lenin. Mas isso também não significa que devam esperar passivamente pelo seu aparecimento. É neste sentido que nós militamos pela retirada da França da União Europeia, apoiando a ideia do Partido Comunista Grego de constituir um Pólo Progressista Europeu contra a União Europeia do capital.

Assim, se um pouco de "mundialismo comunista" parece afastar-nos da nação ou das revoluções sociais iniciadas no quadro nacional, uma verdadeira perspectiva comunista traz-nos de volta. Não existem, de um lado, os mundialistas e, do outro, os patriotas. Há, de um lado, o cosmopolitismo imperial e supranacional, de que o nacionalismo "étnico" é um auxiliar (veja-se a Jugoslávia), e do outro, um patriotismo republicano e progressista associado a um internacionalismo de segunda geração: é o critério materialista de classe que faz a diferença e permite ligar, dialeticamente, perspectiva comunista e socialista, soberania nacional e universalismo comunista.

RH: Qual é, hoje, o ponto decisivo do debate sobre a Europa, tanto em França como fora da França?

GG: Temos de partir da análise concreta do conteúdo de classe da integração europeia. Desde o começo, a Europa capitalista dos seis foi um instrumento da guerra fria anti-soviética e opôs-se, com Berlim na linha da frente, à outra Europa, a Europa socialista. Em 1989, a "reunificação" alemã foi, na realidade, uma anexação da RDA e permitiu reconstituir uma Grande Alemanha capitalista, que disputa aos Estados Unidos a liderança na Europa. Esta Alemanha, sob um aspecto melífluo e abertamente "anti-hitleriano", prossegue, por outros meios, aparentemente mais "doces", os mesmos intuitos expansionistas do imperialismo alemão de antes, como o ministro Joschka Fisher não deixa de assumir impudentemente. Veja-se um mapa da Mitteleuropa: todos os vizinhos da RFA implodiram, estão em vias de implodir ou serem postos sob tutela. A Checoslováquia foi cindida, sem consulta popular, em dois micro-estados, fáceis de dominar. Os países bálticos tornaram-se neo-colónias. Por quanto tempo o enclave russo de Kaliningrado (ex-Königsberg) destoará no coração da União Europeia em marcha para Leste?

Toda a gente conhece o papel da RFA, aliada de circunstância do maquiavélico João Paulo II no desmembramento da Jugoslávia, desencadeado com o reconhecimento unilateral pela Alemanha e Vaticano da independência croata, decretada pelos herdeiros pouco discretos dos Oustachis. A Bélgica está a morrer, morta por Bruxelas; a própria França, aspirada pelo projeto neo-pétainista da " Françalemanha " – é este o nome correntemente empregado pelas nossas "elites" – declina e divide-se em "euroregiões", contra a sua tradição jacobina de centralização republicana e pensa-se já em "desterritorializar" a cidade de Estrasburgo. Para onde olham a Liga Lombarda de Itália e da Áustria de Hayder? Não estaremos em vias de reconstituir os "Impérios Centrais" que dominavam a Europa antes da Revolução de Outubro?

Esta Europa não é a nossa. A sua bandeira clerical – confessadamente, o seu criador imaginou uma bandeira mariana, com as doze estrelas dos apóstolos – não é a nossa. Relançada pela derrota do socialismo soviético, uma derrota para todos os povos, volto a dizer, a Europa de Maastricht é para a contra-reforma capitalista o que a Europa de Metternich foi para a restauração feudal depois da derrota francesa de 1815. O projecto de Constituição Europeia visa, como o próprio nome indica, constituir em ESTADO supranacional e expansionista, isto é, em IMPÉRIO, a União Europeia dominada pelo grande patronato, acobertado pelos liberais, pela democracia cristã (com um papel, insuficientemente assinalado, do Vaticano, líder deste projecto desde o fim da guerra, pelo menos!) e pela social-eurocracia. Esta Constituição é claramente neo-clerical (diálogo obrigatório com as Igrejas), imperial e militarista (o exército europeu integrado na NATO terá por tarefa propagar a "boa governação" no exterior da União Europeia, os orçamentos militares dos Estados-membros deverão aumentar de ano para ano, como está escrito!), antinacional (as leis e constituições nacionais ficam submetidas às leis e Constituição Europeia), antidemocrática (não é o Parlamento Europeu, mas a Comissão Europeia, o executivo não eleito, que tem a verdadeira iniciativa das "leis"!), totalitária (a União Europeia é definida como uma "economia de mercado onde a concorrência é livre e não aparente").

Nenhuma política de esquerda é possível neste quadro! É, pois, uma política única, pré-determinada pela ordem constitucional. Por isso, os dirigentes políticos que aceitam esta constituição são traidores à nação e a qualquer ideia de democracia. Os que recusam esta constituição, mas fazem acreditar ser possível uma "reorientação progressista da União Europeia", uma renegociação da constituição (com quem? Berlusconi? Chirac? Blair?) são ilusionistas que enganam o povo. Não se "reforma" uma constituição imperial, ainda que se lhe injetem questões "sociais" (é uma hipótese acadêmica!); faz-se tudo para a combater e fazê-la fracassar! Se assim não for, estaremos como aqueles "socialistas" de 1914 que mascaravam a guerra imperialista de "defesa da pátria"! Em que é que um imperialismo será menos perigoso quando supranacional, em vez de apoiado em nações, como em 1914?

Na realidade, os partidários do "euro-construcionismo de esquerda", sociais-democratas, euro-comunistas, euro-trotskistas, são, sem se darem conta e com a melhor consciência do mundo, sociais-imperialistas, socialistas de palavras, imperialistas na prática. O que eles recusam analisar, particularmente, é a natureza das contradições interimperialistas. É verdade que hoje a Europa – incluindo a Europa alemã – "segue" mais ou menos os Estados Unidos. E percebe-se, pois não tem ainda um Estado (os Estados Unidos da Europa), um exército, uma polícia, uma força nuclear europeia. Mas que acontecerá quando, dispondo dos atributos políticos, diplomáticos e militares da "Europa poderosa", a União Europeia estiver em condições de afrontar os outros imperialistas – em nome, está claro, da "paz" ou do "modelo social europeu", em plena falência! – pela hegemonia mundial dos mercados, recursos petrolíferos, etc? O objectivo principal da luta contra a União Europeia é, pois, a defesa da paz mundial, no século XXI!

RH: Então a União Europeia não apresentaria nenhuma vantagem em relação ao imperialismo dos Estados Unidos, que é o mais perigoso de todos?

GG: Que a constituição em Estado da União Europeia possa, a curto prazo, apresentar uma vantagem para os camaradas que estão na primeira linha de luta contra o imperialismo dos Estados Unidos, não é bem assim! A União Europeia não apoiou a resolução cubana da ONU para Guantânamo, quando o ministro Felipe Roque defendeu habilidosamente uma resolução inspirada no Parlamento Europeu, o que compreendo perfeitamente. É preciso utilizar as contradições inter-imperialistas, como fez Lenin em Brest-Litovsk. Mas eu vivo na Europa e, sem ignorar o facto de que hoje o imperialismo estadunidense é o mais perigoso de todos, eu tenho de combater AQUI o Estado imperialista, que se constrói com a ajuda dos dirigentes burgueses franceses. " O imperialismo principal está no teu próprio continente ", diria eu cum grano salis, parafraseando Liebknecht.

No quadro do capitalismo, quando nenhum país europeu está empenhado na construção do socialismo, nem faz uma política minimamente progressista, parece-nos aberrante a ideia de verdadeiros progressistas quererem renegociar uma "outra" constituição supranacional. Aliás, se um dia viesse a lume um texto internacional progressista, ele seria inter nacional e não supra nacional. A perspectiva comunista não é o esmagamento das nações, mas a sua fusão por cima, com cada uma delas a trazer à humanidade o que, historicamente, produziu de melhor... e de mais original! O valor universal concreto não é a abstracção uniformizadora de Maastricht, do Basic English e da World Company. A sua riqueza está na diversidade, do mesmo modo que o comunismo não é a negação do indivíduo, mas a sociedade sem classes onde, segundo Marx, "o desenvolvimento de cada um é a condição de desenvolvimento de todos".

"NÃO" À CONSTITUIÇÃO EUROPEIA

RH: Nessas condições, como lutarmos todos juntos para que vença o "não" à Constituição Europeia?

GG: Não há, da nossa parte, nenhum sectarismo em relação aos outros partidários progressistas do "não", pois é necessário distinguir um acordo político de fundo da unidade para objetivos concretos. Contra a Constituição Europeia, nós trabalhamos em círculos concêntricos. Por um lado, fazemos uma campanha francamente comunista em nome do PRCF e dos seus aliados comunistas. Por outro lado, de forma mais alargada, em sinergia com o Comité Nacional contra a Constituição Europeia, mas também com republicanos e defensores de esquerda da soberania nacional, implementamos uma campanha operária, popular, anti-imperialista, patriótica e internacionalista. De modo mais alargado ainda, solicitamos as forças de esquerda favoráveis ao "não" (ATTAC, PCF-Norte, etc.) a uma coordenação alargada da batalha ao "não ". Impõe-se partir de uma ideia simples: a vitória do "sim" bloquearia qualquer perspectiva histórica, ao passo que a vitória do "não" reabriria o futuro.

Então, "marchemos lado a lado e ataquemos juntos", levantando o debate sobre a nação, a Europa, a paz, etc. À escala europeia, desejaríamos um apelo comum por parte das verdadeiras forças comunistas contra qualquer constituição supranacional, isto é, as forças não filiadas no "Partido da Esquerda Europeia". Nós mesmos assinámos um apelo comum com os espanhóis do PCPE e com os comunistas e marxistas-leninistas dinamarqueses. De igual modo, demos, aos camaradas gregos, o nosso acordo de princípio a um Pólo Progressista Europeu de luta CONTRA a União Europeia e pela retirada de todo e qualquer país dessa União.

Um terreno importante é o desenvolvimento da Europa das lutas, particularmente a revogação do "pacto de estabilidade", ligado à moeda única, essa polícia continental dos salários que rompe com todos os direitos sociais adquiridos e reduz as despesas sociais de cada país europeu, colocado sob a tutela meticulosa de Bruxelas. No que se refere ao alargamento a Leste da União Europeia, dizemos que é um presente envenenado aos povos de Leste, polacos, bálticos, etc, que vão absorver as deslocalizações para quebrar a classe operária ocidental e servir de mão-de-obra superexplorada, exportável para toda a Europa, em detrimento de toda a possibilidade de restaurar a sua indústria nacional e os direitos adquiridos no período socialista... E agimos, principalmente no quadro do Comité Erick Honecker de solidariedade internacionalista, para ir em ajuda dos partidos comunistas perseguidos num bom número de países. Além disso, procuramos muito particularmente estar em contacto com os nossos camaradas alemães, pois, face ao eixo imperial " Françalemanha ", colocado sob o apadrinhamento mítico de Carlos Magno, torna-se necessário desenvolver o eixo franco-alemão do proletariado, como aconteceu na época de Thaelmann e de Thorez, na sua luta antifascista.

RH: Será possível congregar as lutas, na Europa, na base de um projeto social europeu, de um programa positivo?

GG: Poderíamos, talvez, assentar no princípio de que nenhuma legislação europeia deve ser pior do que a que os trabalhadores já obtiveram no quadro nacional, recolhendo o que há de melhor em termos sociais, democráticos e culturais. Mas isso deixaria supor que é possível uma "Europa boa", quando o que conta antes de mais é romper o espartilho supranacional e travar a marcha do Estado imperial, que também é um perigo enorme para os povos do Terceiro Mundo. É evidente que, se um ou vários países se orientassem num sentido progressista, a primeira preocupação deveria ser a de se libertarem da tutela supranacional, para encontrar de novo uma margem de manobra interna, ao mesmo tempo que apelariam à solidariedade de todos os trabalhadores da Europa.

Falar, hoje, de um projeto social europeu, parece-nos que é alimentar a ilusão de uma Europa social. Sem uma planificação socialista do desenvolvimento, utópica ou reativa, sem uma ou várias revoluções socialistas na Europa, é impossível, por exemplo, pensar num SMIC (salário mínimo) europeu que não seja uma regressão ou, no melhor dos casos, a pílula dourada provisória, mas necessária à social-democracia, para fazer passar o Estado europeu do capital, um quarto Reich do capital que esconde uma mão de ferro sob uma luva de veludo!

De uma forma mais alargada, "metodológica", os marxistas têm de distinguir o terreno europeu, que deve ser evidentemente trabalhado de maneira internacionalista, do quadro político europeu, que se impõe atacar frontalmente, tão perigoso é para o movimento operário. Os "euroconstrutivistas" de esquerda confundem estas noções, dando a entender que o quadro europeu é indiferente ao conteúdo social, como se fosse uma garrafa onde se poderia verter, indiferentemente, vinho tinto ou vinho branco, segundo as relações de força do momento. Na realidade, numa garrafa adaptada apenas ao vinho branco, o vinho tinto azeda, quando lá é vertido.

E é precisamente por isso que os capitalistas franceses, incapazes de dominar pelos seus próprios meios a sempre rebelde classe operária, optam pelo terreno supranacional, onde podem apoiar-se nas outras burguesias para vergar a República. É já uma velha política: dos emigrados de Coblence, que combatiam Robespierre nas forças da Coligação contra-revolucionária, a Adolphe Thiers, chamando Bismarck em seu auxílio para esmagar a Comuna, ou a Pétain e Laval que "colaboravam" com Hitler para destruírem as conquistas da Frente Popular, a burguesia "francesa" mostra uma grande continuidade – se exceptuarmos o episódio gaulista, que coincidiu com a criação de monopólios capitalistas nacionais – na sua raiva em destruir o quadro nacional, que nunca deixara de a assustar de 1936 a Maio de 1968. Por isso, tendo como alvo a Europa capitalista, não nos desviamos do combate contra os "nossos" exploradores nacionais que, na realidade, são anti nacionais.

Mais uma reflexão: temos de ser prudentes, no quadro geográfico europeu, enquanto "território" para uma construção política progressista. E isso, mesmo no futuro, quando o pêndulo da história se inclinar para o lado do progresso social. Um quadro geográfico nunca é totalmente neutro, historicamente falando. Associar a Alemanha, a Itália, a França, a Grã-Bretanha, a Espanha, a Holanda, matrizes históricas do imperialismo, num mesmo quadro, que esses mesmos países dominariam inevitavelmente, é correr o risco de constituir um superimperialismo ou até, no futuro, um social-imperialismo "branco". Não é impunemente que se juntam as antigas metrópoles coloniais. Como evitar que um tal conglomerado se volte contra a Rússia, os países de África e do Magrebe? Pelo menos, um quadro destes deve e deverá estar sistematicamente aberto e associado aos países do Leste e do Sul da Europa.

POR UMA EUROPA DAS LUTAS

RH: Nessas condições, não é talvez preferível falar da Europa das lutas?

GG: De facto, nós falamos da Europa das lutas, porque há um interesse comum imediato para todos os trabalhadores da Europa: derrotar a política económica decidida em Bruxelas e Frankfurt. Pode ser útil, para desenvolver essa Europa das lutas – coisa bem diferente da inexistente "Europa social" – pôr a tónica na ideia da "nação social e democraticamente mais favorecida", isto é, num alinhamento por cima das legislações sociais e dos salários, com tudo o que lhe é correlativo, pois patrões e governos apresentarão sempre uma regressão como um avanço: o direito de veto para cada povo e para aqueles que representam os trabalhadores de cada país, em qualquer reforma europeia. Mas isto rebentaria manifestamente com a máquina supranacional enquanto tal. Em suma, nós não fazemos "sonhar", nas condições actuais, com a "bela Europa" do futuro. Primeiro, há que reaprender a dizer não, de punhos fechados, e não correr de modo nenhum o risco de atenuar esse "não" com um... "nim".

Enfim, a reconquista da independência nacional que preconizamos interessa a todos os amigos do progresso. Quando se examina o conteúdo real da Constituição Europeia, damo-nos conta de que, não só barra o caminho a qualquer regresso ao socialismo no Leste da Europa, não só ataca as conquistas democráticas resultantes da relação de forças mundial que se seguiu à derrota do nazismo – o que é particularmente verdadeiro em países como a França, onde os comunistas foram a ponta-de-lança do governo de libertação nacional de 1945-46, com avanços sem precedente nos salários –, mas ainda sapa as conquistas da Revolução de 1789-94. Uma contra-revolução anticomunista pode assim esconder uma outra – anti-República burguesa.

A Europa em construção é três vezes "branca": no sentido racista da palavra (em todos os países, há agora imigrados (europeus" e "não-europeus"!), no sentido dos russos brancos de 1918-21 e no sentido dos "Brancos", Vendeanos e outros Chuãs que se insurgiram contra a Primeira República e combateram a Revolução Francesa com a ajuda da Inglaterra. As conquistas importantes da revolução burguesa democrática que são, e não apenas para a França, os princípios de soberania do povo, de laicidade, de igualdade jurídica dos cidadãos e, mesmo, a separação dos poderes, filha da reflexão de Montesquieu, estão ameaçadas e, com elas, o legado da filosofia das Luzes, por toda a parte atacada pela ideologia antiprogressista dominante.

Acrescento que a França burguesa de De Gaulle que levava a cabo, no interior, uma política de reação e, no exterior, uma política de não-alinhamento e, até, de confrontação com os Estados Unidos, só foi possível no quadro de uma relação de forças mundial, marcado pelo equilíbrio Leste-Ocidente. Tendo ruído essas relações de força geopolíticas, a França independente e "gaulista" tornou-se insustentável – e eu evoco aqui, dando-lhe um alcance geopolítico, as análises clássicas de Marx acerca do bonapartismo como emergência de uma força relativamente independente, aproveitando um antagonismo de classe, momentaneamente, equilibrado – excepto quando a classe dos trabalhadores assalariados trava luta para se erigir em "classe nacionalmente dominante", isto é, segundo as palavras de Marx, para se "tornar a nação".

Se a formação social francesa for laminada pela Europa capitalista, isso será uma nova derrota de âmbito internacional para o campo do progresso. Um país capitalista, mas bastante "atípico", onde os serviços públicos eram poderosos, onde a Educação permanece nacional e laica, onde a "excepção cultural" é defendida, mesmo por uma parte da burguesia, contra as "leis do mercado", onde a esquerda e o comunismo encontram raízes históricas e uma parte dos seus "mitos" fundadores, desaparecerá e isso será ainda mais duro para todo o mundo. Que se tenha na memória o Iraque, fossem quais fossem as segundas intenções de Chirac, ao resistir – sem grande apoio da Rússia e da China, diga-se de passagem – à guerra programada pelos falcões de Washington.

RH: Alguns camaradas dizem "ser demasiado tarde", que "a integração capitalista europeia é irreversível"... Que resposta é que se lhes dá?

GG: Era essa exatamente a atitude daqueles que, em 1940, consideravam que a subordinação da França à "nova ordem europeia" se tornara incontornável. Mas temos de ser prudentes com a ideia da irreversibilidade na história. A contra-revolução no Leste, o "desfazer" do campo socialista e, depois, da URSS, começaram com a improvável "saída" do Tratado de Varsóvia da... Polônia! E a URSS existia há 70 anos, enquanto a União Europeia está longe ainda de se encontrar consolidada. Não seria um paradoxo menor se o "desfazer" da Europa de Maastricht começasse por um dos grandes Estados que criaram o Mercado Comum.

SAÍDA DA UNIÃO EUROPEIA

RH: Mas é possível hoje, de facto, a saída da França da União Europeia?

GG: A saída da França da União Europeia só seria uma catástrofe para a grande burguesia francesa, seus homólogos e mentores. Os funcionários dos serviços públicos, os operários deslocalizados, os beneficiários da segurança social, os pequenos e médios agricultores... soltariam um suspiro de alívio. Os trabalhadores da Europa sentir-se-iam encorajados. Claro que seria necessário acompanhar tal saída com uma reconquista resoluta da soberania econômica E da cooperação internacional em todos os domínios, centrada no desenvolvimento do sector público e na procura de parcerias diversificadas, principalmente com os países do Sul. Mas, sobretudo, seria necessário começar resolutamente a luta pela transformação revolucionária da sociedade e apelar à solidariedade dos povos da Europa e de outros continentes.

Se Cuba se "mantém", face ao bloqueio, em condições mil vezes mais duras, se a Venezuela bolivariana resiste e desenvolve-se, apesar da espada de Damocles dos Estados Unidos lhe pender sobre a cabeça, por que é que um país como a França, que forçou sozinha o destino em 1789, não poderia tentar a sua sorte, contando, sem exageros, com um grande movimento internacional de solidariedade e de luta? O que nos deve guiar até essa etapa é a audaciosa afirmação de Lenin: "não se consegue dar um só passo se se receia caminhar para o socialismo". Tomando esta frase a sério, basta analisar a linguagem – que é o melhor indicador da relação de forças ideológicas – para compreender até que ponto o quadro supranacional europeu é mais negativo para a revolução social: para socializar a produção – objectivo sem o qual o socialismo é pura tagarelice – há que começar por "europeizar" ou por "nacionalizar" as grandes empresas? Todos os trabalhadores sabem que, quando uma grande empresa como, por exemplo, a EDF (Electricité de France), é "europeizada", isso significa que é... privatizada, o que mostra à evidência que os dois quadros, nacional e supranacional, não são equivalentes para a transformação socialista da sociedade!

Repitamos, então, que o determinante aqui é os comunistas continuarem fiéis ao marxismo-leninismo, na Europa, unirem-se o mais cedo possível, apelarem juntos ao "não" a qualquer constituição supranacional capitalista, fazerem passar, da teoria à prática, a ideia de um "Pólo Europeu Progressista" de luta contra a União Europeia. O que não significa que seja preciso cortar as pontes com os trabalhadores (apenas com os dirigentes) influenciados pelo euroconstrutivismo. Temos de estar a seu lado nas suas movimentações, mas para os esclarecer e não para reforçar as suas ilusões! A ilusão é por vezes motivadora, admito, mas a questão é saber em que sentido é colocada. Nem que fosse apenas por respeito à classe trabalhadora, eu atenho-me à divisa de Gramsci: a verdade é revolucionária!

"A VITÓRIA DA NAÇÃO IRAQUIANA INTERESSA A TODOS OS PATRIOTAS DO MUNDO"

RH: Passemos agora a uma questão absolutamente fundamental. Qual é a posição do PRCF relativamente à solidariedade com o povo iraquiano em luta?

GG: A resistência iraquiana tem uma importância mundial. Os resistentes iraquianos já transformaram a "vitória" estadunidense num atoleiro e nós só podemos desejar a derrota das tropas imperialistas, o fracasso do poder fantoche erigido pelos Estados Unidos. A vitória dos Estados Unidos ou, mesmo, uma simples estabilização, significaria uma guerra contra o Irão e contra Cuba e uma série infinita de novas predações. Significaria a tutela de todo o Próximo Oriente e a sufocação do movimento de libertação dos povos árabes, a possibilidade, para os Estados Unidos, de consolidar as suas posições no flanco sul do Irão e da Rússia, nas proximidades da Índia, o domínio total dos Estados Unidos sobre o Mar Mediterrâneo, a liquidação da luta nacional palestiniana... A derrota deste objectivo seria um encorajamento formidável a todas as lutas nacionais. Quando o direito das nações a dispor de si mesmas está no coração da luta contra o totalitarismo capitalista, a vitória da nação iraquiana interessa a todos os patriotas do mundo.

Evidentemente, nesta luta de libertação nacional, nós sentimo-nos mais próximos das forças laicas e progressistas, muito especialmente dos "comunistas iraquianos – quadros de base", que se afastaram do Partido Comunista oficial, totalmente integrado – apesar da sua linguagem dúplice de antes da guerra – na reconstrução do Estado fantoche estadunidense. Esperamos vivamente que o povo iraquiano saiba evitar as manobras do ocupante, tendentes a desenvolver uma guerra inter-religiosa ou "inter-étnica" como manobra de diversão aos horrores da ocupação.

RH: Que pensa o PRCF da atitude da França quando esta se opôs, numa certa altura, à agressão dos Estados Unidos contra o Iraque?

GG: Dizer que a oposição de Chirac à agressão contra o Iraque tinha apenas motivos nobres, é um reducionismo. Os interesses das petrolíferas francesas que se aproveitavam do bloqueio estadunidense para explorar ainda mais os mercados, a "política árabe" da França que é uma sobrevivência do império colonial francês, a vontade de preservar o peso da ONU, onde a França dispõe de um assento no Conselho de Segurança, são os verdadeiros motivos da atitude de Chirac. Nós não podemos mostrar-nos reticentes mas apelámos ao governo francês para dar provas de uma atitude consequente, apresentando o seu veto contra a guerra na ONU, condenando a agressão dos Estados Unidos, exigindo que a agressão seja qualificada pela ONU por ser o que é, um crime contra a paz, retirando a França da NATO, uma aliança agressiva, dominada pelo estado-gângster estadunidense, disfarçado de "polícia do mundo".

O IMPERIALISMO EM ÁFRICA

RH: Qual é o papel do imperialismo francês contra ou ao lado do imperialismo dos Estados Unidos?

GG: No que respeita ao imperialismo francês, em África muito particularmente, ele está bem vivo. O desequilíbrio nas trocas econômicas e a dívida testemunham e demonstram que as empresas monopolistas franco-europeias continuam a pilhar o continente africano. Nós condenamos a intervenção militar neocolonial na Costa do Marfim e exigimos a retirada das tropas neocoloniais francesas de África, de Abidjan a Bangui. Ao mesmo tempo, vemo-nos forçados a constatar que as rivalidades inter-imperialistas estão na origem de um bom número de guerras civis, reais ou supostas, na África subsariana. Os Estados Unidos vêem o imperialismo francês enfraquecido e procuram tomar o seu lugar. É importante que as forças progressistas africanas se demarquem de qualquer imperialismo, porque isso ajudaria enormemente a solidariedade, com elas, dos internacionalistas da ex-metrópole. Mas, também aqui, como ajudar o movimento espontâneo das massas africanas a combater eficazmente o imperialismo se o Movimento Comunista Internacional, se a Frente Anti-Imperialista Mundial não se reconstituirem? Os partidos, os movimentos mais fortes destes dois conjuntos têm uma responsabilidade mundial e nós, fraternalmente, apelamos ao rompimento com a retracção nacional que tão cara saiu ao Movimento Comunista Internacional nos anos de 1970-80.

A nossa jovem organização está longe ainda de ter desenvolvido laços sólidos com os progressistas africanos. Está longe ainda, mesmo quando alguns dos nossos camaradas têm responsabilidades no movimento de apoio aos "sem-papéis", de ter tecido uma aliança sólida com os trabalhadores e os jovens imigrados desses países, que são o laço concreto entre a resistência popular francesa e a resistência africana. São estas as tarefas prioritárias. A África está sendo crucificada pela remundialização do capitalismo e a destruição da URSS e do campo socialista foi particularmente catastrófica para ela. Tiremos disso as consequências práticas, não para nos lamentarmos, mas para organizarmos concretamente a solidariedade internacionalista de combate. Desde o princípio desta entrevista, as minhas palavras seriam puro nacionalismo, se, ao mesmo tempo, o PRCF não lutasse sem concessões contra as tentativas de manter o imperialismo francês.

Nós reclamamos a supressão das leis anti-imigrantes que mergulham milhares de operários e de jovens na insegurança. Nós exigimos direitos de cidadania para os trabalhadores estrangeiros e, em primeiro lugar, a sua elegibilidade nas eleições territoriais. Consideramos que a integração cidadã dos estrangeiros passa, contra qualquer diligência "humanitarista" ou comunitarista, pela integração dos trabalhadores estrangeiros na luta pela reconquista da soberania nacional, a exemplo do que fez o PCF durante a guerra de 1939-45, com a criação dos Franco-atiradores e Resistentes da Mão-de-obra Imigrada. E estamos orgulhosos de contar, entre os nossos, com Léon Landini e Arsène Tchakarian, duas figuras de proa deste combate patriótico e internacionalista. É, pois, fundamental para nós a questão da relação com os trabalhadores imigrados que, em França, têm de sofrer simultaneamente uma terrível política repressiva do Estado, o racismo cultivado por Le Pen, mas maciçamente rejeitado pela juventude: 80% das pessoas, pelo menos, não querem de momento "fachos" no poder, nem discriminações de qualquer tipo.

RH: Que lugar ocupa (no programa do PRCF) a solidariedade com os povos do Sul em luta contra o imperialismo? E com a Palestina?

GG: O PRCF é solidário com todos os povos em luta. E, certamente, com o povo palestiniano, que está em plena "frente" de luta contra o imperialismo, representado pelo exército colonial do criminoso de guerra Sharon e dos seus comparsas trabalhistas. O imperialismo estadunidense e o governo de Israel esforçam-se por dividir a resistência palestiniana, apoiando-se naquela parte da burguesia, cuja principal preocupação é fazer a paz a qualquer preço, para desenvolver "negócios". A paz a qualquer preço quereria dizer um pseudo-Estado, um bantustão israelense, sem continuidade territorial, sem desenvolvimento auto-centrado, sem acesso à água, etc.

Maquiavelicamente, o poder israelense e os seus mentores transatlânticos pretendiam que a autoridade palestiniana consagrasse o essencial das suas forças a perseguir os resistentes, de maneira a substituir a Intifada por uma guerra fratricida e a evitar o "trabalho sujo" em Tsahal. O povo palestiniano e a sua heróica juventude frustraram já tentativas desta natureza. A insurreição necessita também de iniciativas populares, coordenadas mundialmente, a fim de evitar o isolamento, a divisão, a derrota, para pôr em cheque estas manobras, de modo que o povo palestiniano possa finalmente gozar de uma paz justa, respeitosa da soberania popular e da integridade territorial.

É bem evidente que nós saudamos os soldados e oficiais do exército israelense que se recusam a servir nos territórios ocupados, como vários camaradas simpatizantes do PRCF e veteranos do PCF recusaram combater no exército francês de ocupação da Argélia.

"TEMOS DE NOS DEFENDER COM A CUBA SOCIALISTA"

RH: E Cuba, cujo povo e governo revolucionários são em França, actualmente, alvo de uma campanha de agressão?

GG: Cuba socialista está no âmago da identidade do PRCF, como recentemente reafirmou a delegação do PRCF a José Balaguer, membro da Comissão Política do Partido Comunista Cubano, delegação composta por Daniel Antonini, presidente da Comissão Internacional, Odile Hage, membro da Comissão Política, e eu próprio. Como repete o deputado Georges Hage, membro da nossa presidência colegial e decano da Assembleia Nacional Francesa, "da mesma maneira que, no século XIX, qualquer progressista tinha duas pátrias, a sua e a França, qualquer progressista moderno tem duas pátrias, a sua e Cuba socialista". A nossa solidariedade não é somente motivada pela simpatia com o povo cubano, tão caloroso, vivo, inventivo, corajoso, criativo, diverso. Assenta também nos factos: nesta nossa época de remundialização do capitalismo, de avanço do totalitarismo neoliberal, de ofensiva da contra-revolução e do seu cavalo de Tróia oportunista, de ameaça imperialista à paz mundial e à soberania de todos os países, Cuba socialista encarna, pelo contrário, a resistência do socialismo, a recusa do mundo unipolar e monocolor, a defesa comunista dos serviços públicos de saúde, da educação para todos, do primado do pleno emprego e da investigação científica, da igualdade dos sexos, da solidariedade anti-imperialista, da recusa do oportunismo gorbatchoviano, da procura de novas vias para prosseguir no caminho do socialismo, da defesa intransigente da soberania nacional, indissociável do socialismo.

Nós admiramos a maneira como o regime revolucionário cubano e o seu inventivo chefe de fila histórico sabem, simultaneamente, agir – inclusivamente quando recua, se há necessidade disso, e sem mascarar, nessa altura, a verdade ao povo – e manter o rumo do comunismo. Nós admiramos a maneira como a própria perspectiva comunista – a cada um segundo as suas necessidades, no domínio da saúde, por exemplo, - continua presente em Cuba, mesmo nos momentos em que é imprescindível fazer concessões controladas à "economia de mercado". Nós admiramos a maneira como Cuba exporta os seus valores progressistas, enviando milhares de professores e de médicos para os países pobres. Nós admiramos a maneira como Fidel, aquando presidente do Movimento dos Não-Alinhados, denunciou, então, a orientação exterminista do capitalismo mundial. Eu digo por que razão a divisa " socialismo ou morte " comporta, segundo nós, uma dupla ressonância, heróica e anti-exterminista, significando: o capitalismo é a morte, o socialismo é a vida.

RH: Como reagem vocês aos ataques incrivelmente violentos e caluniosos de que Cuba é alvo no nosso país?

GG: Nós reagimos com indignação à campanha, indiretamente validada pela direcção do PCF-PGE e levada a cabo pela organização anticomunista RSF (Reporters sans Frontières), com o tema: "Cuba sí, Castro no!" Para nós, a solidariedade com o povo cubano é indissociável da defesa do seu regime revolucionário: toda a gente sabe muito bem, aliás, que, se o socialismo caísse em Havana, a ilha seria imediatamente recolonizada pelos Estados Unidos. E nós vamos mais longe, pois somos partidários da verdadeira ditadura do proletariado, a que Marx, ao analisar a Comuna de Paris, e, depois, Lenin, ao estudar o movimento dos sovietes, definiam como "democracia para as largas massas, ditadura para a minoria exploradora e contra-revolucionária". Tal como durante a Revolução burguesa francesa, atacada pela reação feudal em 1793, quando Saint-Just declarava "nada de liberdade para os inimigos da liberdade", Cuba tem o dever de defender o seu povo contra indivíduos que não escondem sequer as suas ligações em dinheiro com a potência inimiga, que ameaça, cerca e bloqueia o seu país há vários decênios. Se há um problema de "direitos do Homem" relativamente a Cuba e aos cubanos, é o de Guantânamo, onde prisioneiros de guerra dos Estados Unidos estão detidos, fora das garantias dadas pela Convenção de Genebra. E, também, o dos Cinco de Miami, presos de maneira cruel e arbitrária, quando agiam numa acção preventiva pacífica contra as manobras terroristas da máfia de Miami, protegida por Bush III, o governador da Flórida.

É por isso que nós não dizemos que é preciso defender Cuba socialista, mas que temos de NOS defender COM a Cuba socialista. Os Estados Unidos aguardam uma ocasião para invadir a ilha, aproveitando eventuais distúrbios, provocados artificialmente pelos seus homens de mão pinguemente remunerados. Se os Estados Unidos reconquistassem Havana – coisa ainda mais difícil que Bagdad, porque a direção cubana é comunista, porque o povo cubano tem armas e sabe o que tem a fazer em caso de invasão, porque Castro é mil vezes mais popular em Cuba do que o tirânico Saddam Hussein era no Iraque, porque Cuba goza de um largo capital de simpatia na América Latina e no mundo –, então uma muralha decisiva ruiria. Ficaria aberto o caminho para uma caça às bruxas mundial e sem limites contra todos os países subversivos, contra todas as organizações não-alinhadas com os Estados Unidos. A léria "antitotalitária" dos inimigos de Cuba socialista não tem qualquer cabimento: Cuba socialista é um bastião da democracia na marcha da remundialização totalitária do Rei Lucro! Assim, nós, ao defender Cuba, estamos a defender os nossos serviços públicos, as nossas conquistas sociais, o nosso direito à saúde e à educação, o nosso direito à soberania, à paz, a uma alternativa progressista no nosso país!

Nestas condições, apelamos às organizações progressistas francesas que se solidarizem a 100% com o povo cubano E a sua revolução. Propomo-nos igualmente organizar em Paris – centro da campanha anticastrista, levada a cabo pela RSF – uma grande concentração, para a qual serão convidados progressistas de toda a Europa. Um clima novo desenvolve-se na Europa, sobretudo depois da derrota de Aznar, para que se reatem os contatos com a ilha de Che. Ao "desdolarizar" a sua economia, Cuba cria os meios de voltar à ofensiva. Chegou a hora de passar da defensiva ao contra-ataque, em defesa de Cuba e da auto-defesa mundial dos povos, ao lado de Cuba.

A atitude quanto a esta questão é a pedra de toque do internacionalismo proletário de segunda geração a que aspiramos, pois Cuba cristaliza ao mesmo tempo a continuidade comunista internacional, a passagem de testemunho das revoluções de ontem às de amanhã e a reconstrução da frente anti-imperialista mundial, na sua dimensão anticapitalista, de luta contra a remundialização capitalista!

RH: Uma revolução popular magnífica está também em curso na Venezuela, a revolução bolivariana. Qual é a posição do PRCF quanto a isso?

GG: Será preciso dizer que o PRCF olha com imensa simpatia a revolução bolivariana na Venezuela? Por várias vezes, o regime popular soube desmontar as tentativas contra-revolucionárias forjadas por Washington. Qualquer pessoa vê, contudo, que o mais difícil está por fazer e que, à medida que o movimento bolivariano aprofunda as medidas sociais e anti-imperialistas, mais ameaçadora terá perante si a reação patronal e a 5ª coluna dos Estados Unidos.

Toda a gente se lembra do 11 de Setembro chileno, quando o exército e a CIA esmagaram sob as suas botas uma classe operária chilena desarmada. Não duvidamos de que o presidente Hugo Chavez, senhor da experiência adquirida, tanto na forma como no estilo generoso e inovador que são seus, faça o necessário, chegado o momento, para que a verdadeira democracia, a do povo, vença finalmente o fascismo de aparência democrática made in Washington.

COLÔMBIA

RH: E quanto ao povo colombiano, cuja luta pela emancipação social e nacional é hoje "criminalizada"?

GG: O povo e os comunistas colombianos merecem a nossa total solidariedade, tanto mais que os "livres" Estados Unidos e a "democrática" União Europeia puseram as FARC na lista das "organizações terroristas". No entanto, são o governo colombiano e os seus esquadrões da morte que melhor mereceriam esse nome. A sabotagem das negociações do governo colombiano, um governo traidor, que acaba de entregar aos Estados Unidos o exemplar patriota Simon Trinidad é que impede a libertação da franco-colombiana Bitancourt e não a atitude aberta das FARC. O que nós vemos é que a luta de libertação nacional na Colômbia, como na Venezuela, comporta intrinsecamente uma dimensão social, socialista mesmo. Será demasiado audacioso dizer que, quanto mais a remundialização capitalista e a recolonização imperialista do Sul e do Leste coincidirem, mais convergirão a luta anti-imperialista e o combate pelo socialismo, o que alargará as possibilidades de ligar o Movimento Comunista à frente anti-imperialista mundial?

Relativamente às FARC, o nosso papel deve ser lutar em França e na Europa pela sua total descriminalização, pois a sua criminalização equivale a criminalizar o direito dos povos a lutar pela sua independência política e econômica. Quanto ao tráfico de droga, os imperialistas estadunidenses, que tudo fizeram para abater o poder popular no Afeganistão com a ajuda de grupos ultra-reacionários e mafiosos, que se entregavam ao narcotráfico, estão mal colocados para falar disso. Como o tráfico de armas, o tráfico de drogas é vital para o sistema capitalista (e pouco interessam os jovens que esse tráfico exterminista destrói), que se alicerça na morte e na loucura. De forma mais geral, é preciso ligar a luta anti-imperialista à construção de laços de solidariedade sólidos, aqui mesmo, em França, entre trabalhadores franceses e imigrados, vindos dos países do Sul. A nossa América também está em Paris!

RH: Voltando à França, quais as grandes linhas das reivindicações políticas e sociais do PRCF para uma verdadeira transformação social?

GG: Temos de partir da ideia, que só é válida para França, de que nenhuma solução de fundo para os agudos problemas sociais do nosso país – desemprego, desigualdades, recuos sociais impressionantes, baixa do poder de compra popular, desmantelamento dos serviços sociais, desagregação dos laços sociais, insegurança social generalizada – poderá ser encontrada fora de uma transformação revolucionária, socialista, da sociedade. Houve um tempo em que o reformismo podia, em determinadas condições, contribuir para uma melhoria da condição dos assalariados. Nas condições de crise crónica do capitalismo remundializado, de contra-revolução política, de contra-ofensiva imperialista, de neoliberalismo, de fascização da democracia burguesa, o reformismo só pode servir de acompanhamento puro e simples das contra-reformas. A social-democracia, pelo menos na Europa, mostra cada vez mais a sua natureza de cão de guarda "social" dos recuos de civilização, próprios do capitalismo. Por detrás da sua fachada modernista, está na ordem do dia a barbárie mais sofisticada, como foi largamente demonstrado no colóquio de Serpa (Portugal), nos discursos de Miguel Urbano Rodrigues (Portugal), de John Catalinotto (Estados Unidos) e outros camaradas.

Mais que nunca, a nossa época é a de contradição extrema entre a socialização objectiva da produção, que a "mundialização" e a produção intensas exprimem de maneira capitalista e deformada, e a privatização / concentração exacerbada da propriedade dos meios de produção e de poder, quaisquer que sejam as formas dessa apropriação privada. A "superação do capitalismo é impossível, digam o que disserem os neo-reformistas, sem a socialização dos meios de produção, sem a conquista do poder político pela classe dos produtores assalariados em aliança com os outros trabalhadores, sem a destruição do aparelho repressivo burguês. Isto resulta da experiência destes últimos anos e não de "dogmas" marxistas.

Num ensaio intitulado "O Estado e a Contra-Revolução", tentei demonstrar, que mutatis mutantis, a contra-revolução tinha desenvolvido em sentido inverso – confirmando, deste modo, a contrario – as leis da revolução socialista, estudadas por Lenin em O Estado e a Revolução. Os contra-revolucionários, também eles, passaram por uma fase de acumulação de forças e de reformas preparatórias, no próprio interior do sistema socialista. Também eles, tiveram, por objectivo, de imediato, romper, no seu ponto fraco, a cadeia de relações internacionais que constituÍam o campo socialista (Tratado de Varsóvia, depois, a própria União Soviética), quebrar o Estado dos Sovietes, inclusive, por fim, dois golpes de Estado sucessivos, o de Ieltsine, nos finais de Agosto de 1991 e, depois, o bombardeamento do Soviete da Rússia em Outubro de 1993. O objectivo final fora definido por Ieltsine, quando ainda membro do PCUS(!), no seu livro "extremista" em que a ideia central era a " propriedade privada ". Em suma, os contra-revolucionários como Ieltsine e os seus "pontas-de-lança", os neo-termidorianos do grupo de Gorbatchov, praticaram uma política de contra-reformas, constantemente subordinadas ao objectivo final contra-revolucionário: conquista do poder político, destruição do poder político soviético (PCUS e Soviete, Forças Armadas Soviéticas), privatização das grandes empresas e da terra, criação de um novo aparelho de Estado.

Naturalmente, este esquema não é "puro", já que a restauração de um poder reaccionário não pode ser o simétrico estrito da instauração de um poder revolucionário. O final da nossa luta actual é, de todos os modos, o socialismo, como o final da remundialização capitalista seria a erradicação de tudo que lembre o socialismo, de perto ou de longe: Estado, organizações ou militantes.

No caso do socialismo, a estratégia da unidade da esquerda com o PS de Maastricht falhou, ainda que o PCF actual, para lá da roupagem e da "conversa", não tenha nada mais a propor que uma reedição dessa alternância, sem uma verdadeira aposta social. Primado do movimento popular e da luta de classes, articulação das lutas sociais e dos combates eleitorais (sem excluir boicotes em certas ocasiões, nomeadamente eleições para o pseudo-"parlamento" europeu) sob o primado das primeiras, convergência popular maioritária, por iniciativa da classe operária, contra o grande capital de Maastricht, saída da União Europeia e enfrentamento de classe entre o movimento popular e a oligarquia capitalista, tudo isto desembocando na questão decisiva: a do poder político e económico, isto é, a revolução propriamente dita.

INCITAR À RUPTURA COM MAASTRICHT

RH: Enquanto conceito e prática, continua a revolução, em França, na ordem do dia?

GG: É certo que a actual relação de forças não põe diretamente – e é o menos que se pode dizer – a revolução na ordem do dia. Mas, objetivamente, ela é a alternativa e torna-se necessário, permanentemente, com formas vivas e apropriadas, acusar o grande capital, incitar à ruptura com a Europa de Maastricht e avançar com a necessidade do socialismo. De resto, se o enfrentamento latente de classes, em França, apesar da euro-esquerda conciliadora, entre o mundo do trabalho e o grande capital, desembocar, um dia, na união de todos os explorados – " todos juntos " é a palavra de ordem mais popular nas manifestações francesas, desde Dezembro de 1995 –, se esse enfrentamento de classes salutar for dinamizado pela vitória do "não" à Constituição Europeia, situações de crise política e de recomposição política e sindical poderão rapidamente vir ao de cima e precipitar a clarificação da situação política nacional, dominada ainda hoje pelas ilusões da "alternância esquerda / direita". O PS de Maastricht, dividido entre as suas referências simbólicas de esquerda e a sua adesão ao euro-liberalismo, pode cindir-se.

Uma questão decisiva é a reconstrução de um verdadeiro instrumento político comunista em ligação com as lutas. Nós nada excluímos, inclusivamente que as condições emerjam um dia com um governo popular de reconquista social e nacional, que se inspire nos princípios do Conselho Nacional da Resistência, rompendo radicalmente com a tutela de Maastricht, tirando a França da NATO, encetando uma política econômica e social baseada na reindustrialização planificada do país, na reconstituição e alargamento do sector público, no aprofundamento da democracia directa e representativa, na nacionalização democrática dos sectores-chave da economia, na cooperação internacional, numa política plenamente independente em relação aos Estados Unidos, etc.

Dentro deste espírito, enquanto o PCF não adoptou nenhum programa desde 1986, o PRCF dotou-se de um programa comunista de luta e de um Manifesto para o Renascimento Comunista, que expõem a sua política e as suas propostas. Muito evidentemente, é preciso que este programa de reconquista democrática, nacional e social, se traduza em propostas imediatas, susceptíveis de serem adotadas pelo movimento popular. O PRCF está plenamente consciente das suas limitações atuais, mas nem por isso deixa de ter a responsabilidade de fazer ouvir nas lutas uma palavra comunista clara. Por isso, nós viramo-nos, prioritariamente, para os movimentos reivindicativos nas empresas, nos bairros populares e universidades, e as nossas propostas programáticas devem ser concebidas como um instrumento, que os trabalhadores moldarão para criar laços de solidariedade entre os sectores em luta. Tal é necessário porque os estados-maiores políticos e sindicais não têm já plataforma política ou sindical, mesmo pouco global, indispensável à unidade dos movimentos sociais.

De imediato, nós pomos à frente a necessária ruptura da França com o pacto de estabilidade monetária, a necessária renacionalização a 100% das empresas privatizadas pelos sucessivos governos de direita e de "esquerda", a nacionalização-requisição das empresas que despeçam ou se deslocalizem depois de terem recebido fundos públicos em nome do emprego (!), a criação de um plano nacional de reindustrialização do país, a revogação da totalidade das medidas euro-liberais tomadas desde Mitterrand a Chirac, a implementação de uma verdadeira semana de 35 horas, pagas como 39 a todos, a transformação de todos os empregos precários em empregos estáveis, o aumento sensível dos pequenos e médios salários, a taxação dos lucros, do capital e da fortuna, a regularização da situação dos operários imigrados, ditos "sem-papéis", etc.

Contrariamente aos mutantes responsáveis do PCF que opõem o "social" ao "societário", pretendendo que "nem tudo é política", nós pensamos que se impõe articular estes dois aspectos da transformação social. Já dissemos mais atrás, ao criticar o "novo pensamento político" de Gorbatchov, que não há razão para opor os "valores universais" aos "interesses de classe" proletários. A luta, por exemplo, para impedir os monopólios capitalistas dos medicamentos de desvirtuar as investigações do genoma humano, tem um carácter simultaneamente universal e anticapitalista. Portanto, esta luta deve unir os trabalhadores e os que precisam de medicamentos sob o princípio comunista da saúde pública.

A ECOLOGIA FAZ PARTE DO MARXISMO

RH: E passa-se o mesmo relativamente aos grandes problemas ecológicos com que estamos hoje confrontados?

GG: A humanidade chegou hoje a uma fase do seu desenvolvimento histórico em que, depois de ter estado totalmente submetida à natureza exterior – o que se traduz ideologicamente pelo ancestral domínio das religiões sobre a natureza –, depois de ter pretendido dominar a natureza na imagem prometeica da revolução industrial – Descartes fixou como objectivo para a humanidade futura tornar-se "senhora e possuidora da natureza" – precisa, sob pena de morte, produzir e reproduzir as condições naturais da produção. A manutenção e a reconquista de um ambiente viável serão, amanhã, não uma questão secundária de produção, mas uma tarefa central (é o que nos diz, por exemplo, sob uma forma mítica, a ideia da ficção científica da terraformação de Marte). Portanto, dizer que a produção deve ser ecológica não significa apenas que deve poluir menos, mas que, a prazo, tem de mudar de finalidade: visar, não o lucro privado, mas a satisfação das necessidades humanas e, para isso, privilegiar política, científica e tecnologicamente a (re-)produção social das condições naturais de produção. Isto não significa um retrocesso, uma idealização reacionária da natureza pré-humana, mas uma aceleração da revolução tecnológica, liberta das amarras do capital.

Mais que nunca, a investigação científica, sacrificada ou fortemente instrumentalizada pelo capital, é vital para o futuro da humanidade – como, aliás, Cuba bem compreendeu. Ora, dialeticamente, para que o Homem possa responsabilizar-se, racionalmente, pela natureza exterior, ele tem de vencer a natureza quando esta domina o próprio Homem social, sob a forma incrivelmente selvagem do capitalismo neoliberal. Prometeu deverá aliar-se a Espartaco para se encarregar da "Gea". A ecologia não é, pois, exterior ao comunismo, é-lhe consubstancial, por muito pouco que integremos, na "análise concreta da situação concreta", a tomada de consciência exacta da significação histórica do comunismo na história das relações entre o Homem e a natureza, enquanto essas mesmas relações forem mediatizadas pelas relações – políticas! – do Homem com o outro Homem. O materialismo histórico explica como o utensílio é o mediador histórico desta relação dupla, assim como a apropriação colectiva do utensílio pelo Homem, hoje mais fácil que nunca, graças às tecnologias de informação e comunicação (TIC).

RH: Deve-se abordar aqui, também, a questão tão importante da igualdade entre os sexos?

GG: De certo, essa questão da igualdade entre os sexos está tipicamente na interface do social e do societário, pois a diferença sexual tem um papel estruturante na formação da subjetividade humana, como demonstraram não só Freud, mas o grande psicólogo marxista Henri Wallon. Perder de vista o aspecto diretamente social do problema seria irresponsável. As mulheres, principalmente, e não só as das classes trabalhadoras e dos países de Leste, são atacadas brutalmente pela contra-revolução. Uma diretiva, por exemplo, da União Europeia, imediatamente transposta para o direito francês por Jospin, restabeleceu, há anos, o trabalho noturno das operárias.

Ideologicamente, as piores ideologias patriarcais, as religiões nas suas formas mais regressivas, reflorescem à sombra da contra-revolução ideológica, de Bush a Ben Laden. Porquê, então, desligar, como no feminismo burguês, a luta pela igualdade do combate geral pela emancipação social? Como dissociar a luta das mulheres da luta ideológica, numa concepção racional e crítica do mundo?

E, inversamente, como orientar o combate anticapitalista e, mesmo, a construção do socialismo futuro na perspectiva do comunismo, concebido como superação geral das alienações sociais, sem afrontar as tradições patriarcais no seio do movimento operário? Tradições que se traduzem, por vezes, no movimento operário, por uma religiosidade profunda que teve consequências gerais terríveis quando o partido ou os seus líderes assumiram a figura de Pai! Engels e, depois, Clara Zetkin deram ênfase, com toda a razão, à solidariedade profunda do combate de classe e de emancipação social e ideológica do sexo feminino.

RH: Que balanço se pode fazer das experiências do comunismo que realmente existiram no século XX?

GG: Relativamente ao passado do movimento do comunismo, os fundadores do PRCF consideram que temos de assumi-lo globalmente. Assumir não significa, de modo algum, aceitar tudo de forma acrítica, mas é, situando-nos resolutamente na continuidade do comunismo dos séculos XIX e XX, especialmente na linha de Outubro e da III Internacional, que nós poderemos herdar do comunismo como comunistas, isto é, praticando o que Lenin chamava a "assimilação crítica da experiência". Como dizia o filósofo comunista Georges Politzer, "o espírito crítico, a independência intelectual não consistem em ceder à reação, mas, sim, em não lhe ceder". O requisito indispensável a qualquer crítica comunista do comunismo é defender o nosso legado comum contra o revisionismo e o negacionismo históricos. O objectivo dessa atitude é apagar a memória e criminalizar o passado para, simultaneamente, fechar o futuro das revoluções e impedir que o futuro socialista beneficie da crítica construtiva do passado. É, também para poder conhecer, pensar, criticar, retificar que temos de assumir a história, e, principalmente "manter o passo dado", como disse Arthur Rimbaud.

De um ponto de vista de classe, não é possível avaliar o balanço histórico da primeira experiência socialista da história, a que se abriu em Outubro, sem fazer o balanço da contra-revolução. Ora, quaisquer que sejam as críticas retrospectivas que possamos dirigir ao socialismo passado, o balanço atual da sua destruição é, objetivamente, equivalente a um "tsunami histórico-social". Sem a URSS, sem o campo socialista, o mundo está nas mãos da hegemonia ilimitada do imperialismo, entregue à sua natureza desmesuradamente predadora. A relação mundial das forças entre trabalho e capital, entre forças de progresso e de reacção, foi brutalmente desequilibrada com a anexação da RDA – perdão, a "reunificação"! – e com o desmantelamento antidemocrático da URSS. Recordemos que, menos de um ano antes, 76% dos soviéticos tinham votado a manutenção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Quando dizemos que Ieltsine é um traidor ao povo do seu país, não o fazemos com base na cólera, mas nos factos.

As contradições interimperialistas, contidas com a simples existência da URSS, voltaram à sua violência anterior a Outubro e é, antes de mais, neste quadro, que deve ser compreendida a criação da Europa de Maastricht. As conquistas do socialismo, com tudo o que significavam como ponto de apoio para os trabalhadores de todo o mundo – direito à habitação, ao pleno emprego, princípio da economia planificada, agricultura colectiva, direito de todos aos cuidados de saúde, à educação, desenvolvimento cultural e científico, políticas para a infância, apoio às lutas dos países do Sul, vitória histórica do Exército Vermelho sobre o nazismo em Estalinegrado, etc – foram demolidos. Com o desaparecimento deste outro mundo REAL, por imperfeito que se queira, mas diferente desta selva planetária que se chama capitalismo, a consciência de que um " outro mundo é possível " recuou perigosamente. A luta de classes avança mais um passo, mas a iniciativa da classe dominante esforça-se por retomar todas as conquistas sociais concedidas desde 1917 e, até, no que à França se refere, algumas conquistas que datam de 1789, como a soberania nacional.

É grave, pois, a responsabilidade daqueles que, cedendo à ideologia dominante, qualificaram o colapso dos regimes socialistas de " transformações democráticas a Leste ", desorientando as massas populares. Não é a contra-revolução, sozinha, que produz a atual desorientação planetária do campo progressista. É o seu disfarce em " revolução democrática ". A última palavra neste jogo de máscaras é a maneira como os meios de comunicação ocidentais apresentam a vitória do ultraliberal Ioutchenko, pinguemente subvencionado com dinheiro dos Estados Unidos e "promovido" pela União Europeia, como uma " revolução laranja ", quando o intuito deste movimento, justamente combatido pelos mineiros do Don, é anexar a Ucrânia à União Europeia, subjugar o movimento operário ucraniano e fechar o cerco imperialista à Rússia.

É igualmente grave a responsabilidade daqueles que falam de "fracasso" do socialismo e acusam inconsideradamente o pretenso "modelo" leninista, como se a derrota sofrida pelos partidos comunistas do Leste não tivesse senão causas internas e fosse independente da luta de classes mundial e dos seus efeitos internos nos países socialistas, com o desenvolvimento da corrente liquidacionista, encarnada por Gorbatchov. De maneira deformada – pois os defensores burocratizados e muito disciplinados do socialismo nunca chamaram as massas soviéticas a defender a URSS –, a luta aguda entre "renovadores" capitalistas e defensores do socialismo refletiu, no interior da URSS e do PCUS o enfrentamento secular entre capitalismo e socialismo.

RH: Os representantes da ideologia dominante, no exterior, não foram ao ponto de criminalizar o comunismo?

GG: De facto. Em vários escritos, eu apelei a que a análise revolucionária da contra-revolução substituísse a criminalização contra-revolucionária das revoluções, que é hoje maciçamente ensinada nas escolas do "mundo livre". Para compreendermos, como revolucionários, os factores desta implosão induzida, é preciso, em meu entender, evitar uma leitura unilateral do processo contra-revolucionário, que é um processo sobre determinado e plurifatorial. Assim, como se pode iludir a enorme pressão imperialista que a URSS, ou a RDA, por exemplo, tiveram de sofrer durante decênios, não falando já das consequências diferidas sobre várias gerações da guerra de exterminação levada a cabo por Hitler contra a parte ocidental da URSS? A esgotante corrida aos armamentos imposta à URSS – cada etapa desta corrida foi iniciada pelos Estados Unidos –, a chantagem da exterminação nuclear, a segunda guerra fria (terceira corrida aos armamentos) iniciada por Carter e, sobretudo, por Reagan, as avassaladoras e incontornáveis despesas com armamentos que a URSS foi obrigada a consentir para garantir a sua segurança, tudo isso constituiu um rol de contingências deformantes no desenvolvimento socialista do país. E não só no plano quantitativo, pois esses recursos eram desviados da construção de uma vida livre e feliz, mas também no plano qualitativo, dado que o florescimento do socialismo em comunismo – a orientação para o enfraquecimento do aparelho de Estado, por exemplo, – era sucessivamente adiado pela pressão ideológica, política, militar e económica do imperialismo.

Durante os anos de Reagan, em que a tensão Leste-Ocidente foi levada à incandescência, como resposta, aliás, aos avanços revolucionários no mundo, essa pressão externa ajudou enormemente a corrente liquidacionista gorbatchoviana a abrir o caminho do poder, em nome da aspiração geral dos soviéticos à paz por qualquer preço. Ora, essa corrente, longe de modernizar o socialismo, tudo fez para o desarmar unilateralmente, neutralizá-lo ideologicamente, paralisar o PCUS e as massas operárias, de maneira a escancarar as portas às forças contra-revolucionárias, pilotadas pelo Ocidente.

Por sua vez, este triunfo do oportunismo no PCUS não teria sido possível sem, por um lado, a vitória do oportunismo em muitos grandes partidos comunistas ocidentais (Itália, França, Espanha...), sem a lenta burocratização prévia dos regimes socialistas, sem o seu abandono efetivo da perspectiva comunista, sem o fosso crescente entre o aparelho de direção e as massas comunistas e operárias.

Não há necessidade de aderir ao trotskismo para estabelecer uma ligação entre esta burocratização e a situação de recuperação com que se viu confrontada a primeira experiência histórica do socialismo. Lenin explicava, em 1917, que seria fácil começar a revolução no Oriente, onde as contradições eram explosivas, mas difícil construir lá o socialismo, dado que a grande indústria estava no Ocidente. Em contrapartida, seria mais difícil, explicava ele, começar a revolução no Ocidente, onde o imperialismo atenuava as contradições sociais das metrópoles capitalistas, utilizando o sobrelucro colonial, se bem que fosse mais fácil, em princípio, edificar lá o socialismo, dado o desenvolvimento superior das forças produtivas e da cultura. Ora, em 70 anos, embora o socialismo tenha recuperado uma larga parte do atraso inicial, sobretudo até aos anos de 1960, ele não se estendeu aos países capitalistas ocidentais e o esmagamento da revolução alemã, na década de 1920-30, pesou muito nesta situação. No essencial, a classe operária do Ocidente continuou sob a alçada da social-democracia e onde apareceram grandes partidos comunistas de massas, como em França, Itália, etc, esses partidos, por vezes, descomunizaram-se bastante, na década de 1970, com o eurocomunismo.

Em suma, a distorção imperialista da contradição capital / trabalho permitiu ao capitalismo dividir permanentemente o proletariado mundial e instalou o socialismo, durante um longo tempo, numa situação de graves constrangimentos deformadores. De modo que o debate "causas internas ou causas externas" da contra-revolução está mal posto: os constrangimentos externos agiram, durante um longo período, no interior e os desvios internos tornaram o país mais permeável às agressões externas, principalmente no plano ideológico. Uma verdadeira guerra mundial ideológica foi lançada contra a URSS na década de 1970, apoiando-se, por exemplo, nos livros de Soljenitsyne. "O externo" e "o interno" estão ligados entre si, como no famoso anel de Moebius, tão caro a Hegel.

NÃO AO "COMUNISMO LOCAL"

RH: Não estamos aqui a retomar o debate sobre a viabilidade da construção do socialismo num único país?

GG: Claro que sim. Tudo isto foi dito por Lenin, antes de Trotsky. Contudo, nunca chegou à conclusão falsamente revolucionária e, na realidade, derrotista de que era impossível fazer-se a construção do socialismo num só país. Lenin compreendia que o confinamento do socialismo às fronteiras da Rússia tornava possível, não só uma agressão militar, a qualquer momento, contra os Sovietes, mas uma degenerescência interna do poder pela burocratização do partido e do aparelho de Estado. Foi Marx, aliás, e não Trotsky, o primeiro que, numa nota de A Ideologia Alemã, assinalou que o comunismo "local" não poderia manter-se, embora pudesse existir durante um certo tempo, em caso de "universalização das trocas". Não se universalizando ele mesmo, o "comunismo local" não socializaria senão a penúria e, com a concorrência subterrânea que implica sempre escassez, o "comunismo local" reproduziria infalivelmente "die selbe Scheise", isto é, a mesma "merda capitalista, nas próprias palavras de Marx.

Lenin, porém, não baixou os braços: apontar os obstáculos, no campo técnico ou no domínio político, é criar os meios para superá-los. E Lenin explica claramente, nos seus últimos textos, que a Rússia dispunha dos meios para construir o socialismo, se identificasse e combatesse os factores de deformação inerentes ao "socialismo num só país". Lenin, por exemplo, procurou "emagrecer" o aparelho administrativo do Estado, desenvolver medidas propriamente comunistas, incrementar a industrialização do país à custa não do campesinato, mas do aparelho de Estado. Contrariamente a Trotsky, que queria ter mão nos sindicatos, Lenin concitou os sindicatos a defenderem o Estado operário, resistindo ao Estado operário. Lenin criou a Inspeção Operária e Camponesa (rabkrin) para vigiar o aparelho de Estado.

No que se refere ao partido, ele impulsionou o desenvolvimento das direções colectivas e a proletarização dos quadros. A nível internacional, deu a maior atenção ao desenvolvimento da Internacional Comunista e da Frente Anti-Imperialista. Relativamente à Federação Soviética, combateu qualquer ideia de dominação russa e entrou em conflito agudo com Estaline e Ordjonikidze, conhecidos por "esbirros da Grande-Rússia", dada a extrema brutalidade com que tinham feito a integração da Geórgia na URSS. Quanto à política económica, Lenin não tinha nada de dogmático e sabe-se que, após o comunismo, ele propôs a NEP e, chamando os bois pelo nome, considerou esta etapa de "capitalismo de Estado" – hoje dir-se-ia de "socialismo de mercado" – como um recuo imposto pelas circunstâncias.

RH: Isso revela subtileza táctica na implementação da sua estratégia de marcha para o comunismo, não é?

GG: Lenin deu provas de uma extraordinária subtileza táctica, sem perder o rumo do comunismo, inclusivamente, ao visar a todo o momento o enfraquecimento do aparelho de Estado, o alargamento máximo da democracia popular e isto nas piores circunstâncias históricas. Como já disse, essa era a linha constantemente lembrada em O Estado e a Revolução, das "Teses de Abril": Lenin nunca opôs socialismo a comunismo, ditadura do proletariado a enfraquecimento do Estado. Ele sempre teve presente no espírito a frase de Marx de que "a ditadura do proletariado é apenas uma etapa histórica para a dissolução de todas as classes e para a sociedade sem classes", o que não o levou de modo nenhum a baixar a guarda contra os inimigos da revolução, sendo, para ele, a ampliação da democracia socialista e o armamento do povo ("milícia popular") o melhor antídoto contra o inimigo. Evidentemente, o enfraquecimento do Estado, última etapa da ditadura do proletariado, não tem nada em comum com o desmantelamento neoliberal dos serviços públicos, organizado em paralelo com o reforço da polícia e do exército profissional.

Consequentemente, Lenin – gravemente debilitado pela doença, pôs as suas últimas forças neste combate, sem ser verdadeiramente escutado – propôs antídotos políticos para o risco, claramente diagnosticado por ele desde os anos de 1920, de degenerescência do jovem Estado soviético, ameaçado de "asiatismo". Foi neste quadro que se opôs, no seu famoso "testamento", a José Estaline, a quem acusava de "brutalidade" e gosto pelo poder. E a conclusão dessa carta era, pura e simplesmente – para desgosto dos que pretendem apontar a Lenin os erros cometidos pelo seu sucessor – afastar Estaline do posto de secretário geral.

RH: O menos que se pode dizer é que Estaline não teve em conta esses avisos...

GG: De facto. Com Estaline, o enfraquecimento do aparelho de Estado, de certo transitoriamente impossível em virtude da ascensão do fascismo, da guerra e, depois, da guerra fria, saiu decididamente da perspectiva. Na época de Brejnev, já nem se falava disso e, pelo contrário, o aparelho de Estado, submetido cada vez mais ao aparelho policial, controlou as massas e o próprio partido, quando o que Lenin queria era o inverso. Em plena guerra, a Internacional Comunista foi dissolvida por iniciativa do partido russo – e jamais restaurada a seguir –, com as graves consequências ulteriores de divisão do movimento internacional. Quanto à necessária coletivização da agricultura, ela nem passou pela "cooperação" que implicava, em primeiro lugar, ajuda econômica à coletivização e ao voluntariado (como propunha Lenin), mas fez-se pelos métodos brutais e contraproducentes que se conhecem.

Enquanto, no tempo de Lenin, o Partido Bolchevique realizava intensos debates internos e linhas opostas podiam afrontar-se nos congressos, sendo possível votar em orientações diferentes – coisa bem diferente do direito às tendências permanentes e organizadas –, sem que por isso a disciplina militante fosse menos sólida uma vez a decisão tomada, o monolitismo, de fachada, como se viu depois da morte de Estaline, era a regra no partido estalinizado e a eliminação policial dos opositores reais tornou-se norma, em total contradição com o que acontecia na época leninista. E tudo isto se complica pelo facto de, como atestam os arquivos soviéticos, certos opositores estarem, pura e simplesmente, a pactuar com o inimigo. Que a paranóia política tenha às vezes razão, isso não a impede de ser uma paranóia, tal como o reconhecimento objectivo de uma traição real não significa que se dê direito ao delírio político da perseguição. Após a guerra, o Partido Soviético tardou oito anos a fazer um congresso, quando, entre Fevereiro e Outubro de 1917, em plena efervescência revolucionária, as assembleias democráticas do Partido Bolchevique se multiplicavam.

Como se vê, as condições objectivas não são tudo: o marxismo, aliás, não serviria para nada se não permitisse orientar a ESCOLHA política neste ou naquele sentido. Uma via leninista, não estalinista, era pensável em meados da década de 1920. O possível existe na história. A necessidade dialéctica não é uma necessidade mecânica e determina as alternativas concretas e as condições de escolha, não o conteúdo concreto das políticas, que são da responsabilidade dos partidos e direções políticas. Se as forças produtivas determinam a história em última instância, é a luta de classes que decide concretamente as escolhas históricas, nesta base objectiva. Quanto a estas questões, a discussão continua, aliás, aberta no seio do PRCF.

RH: Como se situa o PRCF relativamente ao que se chama a "destalinização"?

GG: O PRCF não enfileira no consenso "anti-estalinista" que está na moda. Por um lado, Estaline teve o mérito, contra Trotsky e as suas teses, realmente, mencheviques, de entregar-se de corpo e alma à construção do "socialismo num único país". Os seus desvios de tipo centralista, autoritário e dogmático custaram caro aos comunistas, muitos dos quais injustamente eliminados. Todavia, esses desvios foram durante muito tempo compatíveis com o desenvolvimento da URSS que, para construir a sua indústria, sair do subdesenvolvimento, resistir ao cerco capitalista, organizar a sua produção de guerra, liquidar o desemprego, ganhar a guerra contra Hitler e, depois, reconstruir-se, tinha objectivamente necessidade de uma direcção fortemente centralizada. O período estalinista não foram apenas as purgas, mas também a industrialização, a modernização do país, a criação de uma base técnica, científica, militar e cultural de nível mundial. E foi, sobretudo, a vitória histórica da URSS sobre o fascismo, inseparável do nome de Estalinegrado. Foi, também, o alargamento do campo socialista, após a guerra.

No Ocidente, a consolidação do socialismo, quando o capitalismo se afundava na crise de 1929 e o fascismo se espalhava por toda a Europa, foi uma formidável esperança que catalisava as lutas populares. Nesse sentido, a amálgama actual "estalinismo = fascismo" é odiosa e perigosa: reabilita o fascismo, criminalizando o socialismo; liberta os fascistas, apontando a porta do cárcere aos militantes da classe operária.

De forma contraditória, a herança de Estaline foi difícil de gerir para os comunistas do período pós-estalinista. Como, após um tal mestre (maestro), reaprender a gerir democraticamente as contradições no seio do partido, no seio do povo e no seio do movimento comunista internacional? A "destalinização", intentada por Kruchtchov, operou-se sob formas perfeitamente "estalinistas". O seguidismo, o monolitismo, a disciplina antes do debate (!) são o pior legado desses anos e contribuíram grandemente para a liquidação, sem oposição, dos partidos do Leste. Alguns deles foram ao ponto de aceitar a dissolução do partido... por "disciplina partidária"! Unanimemente, recusemos continuar! À boa maneira religiosa, queimou-se o que se tinha adorado. O anti-estalinismo, mais do que contestar e retificar o estalinismo, inverteu-o.

E, sobretudo, a "destalinização" deitou fora a criança com a água do banho. Primeiro, fez um julgamento simplista e maniqueísta da obra do próprio Estaline, cultivando o negacionismo, desbaptizando, por exemplo, a cidade heróica de Estalinegrado. Depois, longe de propor uma análise crítica materialista, dialéctica e leninista do período de Estaline, adoptou muito largamente as teses propriamente revisionistas e direitistas. A "destalinização" foi, na realidade, sinônimo de "dessalinização", de edulcoração do socialismo.

Cultivaram-se ilusões sobre o papel positivo do lucro quantificável, empresa a empresa. Cultivou-se a ilusão da passagem puramente pacífica e parlamentar ao socialismo. Adoptou-se uma falsa concepção da coexistência pacífica, colocando em primeiro plano as teses internacionais que negavam o antagonismo de princípio entre socialismo e capitalismo. O travão posto por Brejnev gelou a situação, parando, na verdade, o debate sobre o passado na URSS, agravando a herança burocrática, sem retificar a errada orientação econômica, posta em prática por Kruchtchov. Em suma, a igual distância do "estalinismo" e do "anti-estalinismo", há que fazer uma leitura crítica deste período, caracterizado ao mesmo tempo por sombras trágicas e grandes luzes.

IUGUSLÁVIA

RH: Que pensar das outras experiências de socialismo? Já evocámos Cuba, que continua de pé. E a Jugoslávia?

GG: Em Cuba, a herança propriamente comunista de Guevara está presente, inclusivamente quando é necessário fazer um recuo para o socialismo "con el mercado".

Quanto às outras experiências do século, elas foram marcadas, em diferente grau, pela unilateralidade.

A Jugoslávia de Tito era certamente um paraíso em comparação com o que fez a restauração capitalista integral, consecutiva ao desmantelamento e ocupação da República Federal pela NATO. Mas "a autogestão" titista não era, seguramente, uma solução: na prática, a ausência de plano fez crescer os desequilíbrios entre as repúblicas federadas e subsistiram o desemprego em massa e a emigração. Além disso, durante todo um período, a Jugoslávia esteve no campo anti-soviético, a pretexto do não-alinhamento, antes de acompanhar a evolução para a esquerda do Movimento dos Não-Alinhados, nos finais da década de 1970.

A experiência jugoslava mostra, pelo menos, que a autogestão tem de ser enquadrada por uma planificação central democrática, sem o que as empresas socialistas comportam-se umas em relação às outras, como empresas privadas e é o mercado, na realidade, em última análise, o mercado mundial, que tem o papel de "regulador", aumentando todas as desigualdades.

CHINA

RH: Voltemo-nos agora para a China, a de Mao e, depois, a das "reformas", da qual depende cada vez mais uma grande parte do futuro do mundo.

GG: A nova China de Mao, depois de ter dado um enorme contributo ao povo chinês, derrapou para o esquerdismo, para o aventureirismo, para o anti-sovietismo, ao ponto de entrar em namoro com o imperialismo dos Estados Unidos, na época de Chu En Lai, e fazer guerra ao povo vietnamita.

Quanto a mim – mas o debate continua aberto no seio do PRCF –, o "socialismo de mercado" atual não parece ser uma solução viável a longo prazo. Se ainda os dirigentes chineses apresentassem o seu modelo actual como uma fase de recuo táctico, como fez Lenin com a NEP, seria um mal menor. Mas será possível apresentar como um avanço a transformação das zonas costeiras em zonas de ausência de direitos sociais e sindicais, a pauperização de milhões de camponeses expulsos das suas terras, o desemprego de dezenas de milhões de assalariados, o envio para a morte de centenas de mineiros chineses nas minas encerradas por falta de segurança, a transformação da China em bomba de sucção mundial das deslocalizações que matam o proletariado industrial e desestabiliza as bases sociais da luta de classes no Ocidente, a privatização do sector estatal e os despedimentos daí decorrentes, o desenvolvimento de uma classe capitalista exploradora e milionária e a sua admissão no seio do Partido Comunista Chinês(!), o desaparecimento de qualquer alusão ao imperialismo, nos textos oficiais do PCC, o facto de, ao fim e ao cabo, a China "comunista" se ter oposto menos que a França capitalista à invasão do Iraque?

Não digo isto para dar lições aos comunistas chineses, pois sei que os tempos são duros. Mas, pelo menos, o marxismo contemporâneo não "teoriza" este "socialismo (?) de mercado – em Cuba, nada de confusões, fala-se de "socialismo com o mercado", o que aponta a contradição em vez de a escamotear – como o futuro do socialismo, enquanto o desenvolvimento neoliberal da China for, no presente, essencial ao equilíbrio da economia capitalista mundial, como bem sabe a Cruella Rice que, nos seus discursos, ataca frontalmente Cuba, a Coreia popular e o Zimbabwe, poupando hipocritamente a China.

Seria catastrófico para a relação mundial de forças que a República Popular da China acabasse por cair no lado capitalista. Uma corrida feroz se seguiria, para a partilha deste país que, à falta de um desenvolvimento socialista, conhece um certo desenvolvimento nacional, o qual, a prazo, não pode deixar de desagradar ao imperialismo dominante, pouco disposto a dar lugar à China e à Rússia, mesmo que se tornem capitalistas. Ora, se a classe capitalista se desenvolver na China, como é incontestavelmente o caso, e se, por outro lado, as contradições de classe e a luta de classes são negadas pelo Partido Comunista Chinês, mais cedo ou mais tarde haverá tentativas para que este país mude definitivamente de cor. Aliás, deu-se já uma tentativa deste gênero em Tiananmen, quando elementos pro-ocidentais exploraram as reivindicações estudantis, legítimas, sem dúvida, para edificar uma "deusa da liberdade", indubitavelmente de inspiração estadunidense.

Quando sabemos os sacrifícios que os comunistas e as massas populares chinesas tiveram de consentir em prol da República Popular, não podemos senão estar muito atentos à situação deste país cheio de futuro, onde se joga, em grande parte, o relançamento do socialismo internacional ou a aceleração do processo contra-revolucionário mundial.

CONTRA O MARXISMO ANTI-LENINISTA

RH: Que lugar reservam vocês ao marxismo? Em que medida a referência a Marx é central para o PRCF? E a referência a Lenin?

GG: Eu alerto para a atual tentativa de separar Marx de Lenin, avançando com um "bom" Marx, crítico, fino, recuperável por finos universitários que de tudo se servem para alimentar o moinho ideológico do reformismo, contra um "malvado" Lenin, violento, dogmático e pouco inteligente. Não caiamos na armadilha deste "marxismo – antileninismo" grosseiro, que visa castrar o marxismo e separá-lo da classe operária militante, fazendo dele uma piedosa "utopia". O marxismo não é nem uma utopia – com tudo o que essa palavra comporta, por definição, de impotência aceite –, nem um chão "realismo político". O seu papel é estudar o mais objectivamente possível as contradições da realidade natural e social e apreender, nesta base, como os homens, especialmente os trabalhadores, podem superar essas contradições pelo trabalho, pela ciência, pela luta – e, em certos casos, pela criação artística –, em vez de serem cilindrados por elas.

A moda ideológica antileninista, mesmo na extrema-esquerda, é a rejeição da vanguarda e da teoria, o culto do espontaneísmo. A pretexto de modernidade, trata-se de um regresso a Bernstein, o fundador do revisionismo, que, a princípios do século, declarava: " o movimento é tudo, o objectivo final não é nada ". Em plena continuidade de Marx – "em todas as sociedades divididas em classes, o pensamento dominante é o da classe dominante", "a classe materialmente dominante é também a classe espiritualmente dominante" –, Lenin estabeleceu que o movimento espontâneo das massas só podia conduzir ao reformismo ou, quando o descontentamento é muito, ao aventureirismo de esquerda. "Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário". E acrescenta: "sem teoria da contra-revolução, não há resistência eficaz à contra-revolução".

É precisamente para conquistar a sua independência ideológica, cultural e política, relativamente às classes dominantes, que as classes exploradas necessitam de uma teoria científica e de um partido político de vanguarda que lhes permitam pensar por si mesmas. De vanguarda, significa aqui: capaz de resistir à ideologia dominante, ir contra a corrente, afrontar, por vezes, a ideologia espontânea das massas que, por detrás de uma aparência "informal", está, na verdade, largamente eivada de ideologia burguesa, pelo menos em períodos contra-revolucionários.

Contrariamente ao que nos diz o empirismo, o pragmatismo e outras velharias remoduladas do arsenal ideológico burguês, temos de ter conceitos para poder pensar, uma filosofia para nos libertarmos tanto das concepções religiosas como do materialismo burguês vulgar, uma teoria política para escapar ao pensamento dominante. E é, paradoxalmente, para aceder à própria consciência e tornar-se um agente histórico plenamente capaz, que a classe dominada precisa de um partido seu, que aja a partir da análise mais objectiva possível da realidade social.

A "desideologização" da sociedade socialista, promovida por Gorbatchov em nome do "pensamento novo", isto é, em nome de uma... ideologia, desarmou os trabalhadores soviéticos, que são hoje menos livres que nunca, despojados como estão de qualquer pensamento autónomo sobre o curso da história. Em França, a travagem progressiva da formação marxista no seio do PCF – que fazer, aliás, de uma formação marxista, quando os estatutos do PCF já não contêm nenhum quadro teórico preciso, desde 1994? – teve igualmente consequências funestas no desmoronamento organizacional e, mesmo, eleitoral deste partido, que contava com 700 mil aderentes em 1977.

A necessidade de uma teoria revolucionária está comprovada, hoje ainda mais, quando a classe burguesa dispõe de um aparelho mediático de poder inaudito, campanhas ideológicas são orquestradas mundialmente e secundadas por todos os meios de comunicação, uma língua única é imposta, de facto, ao mundo, com as consequências ideológicas que se adivinham, a escola e a universidade difundem maciçamente o anti-sovietismo e o anticomunismo, nenhuma atividade humana escapa à publicidade que, através desta ou daquela marca, gaba incessantemente, na realidade, o todo-poderoso "mercado", grande número de organizações da esquerda oficial – estou a falar da Europa – e mesmo do "comunismo refundado" transmitem os ideais burgueses e tudo se faz para separar e opor os trabalhadores, inclusivamente com a atomização dos contratos colectivos de trabalho.

RH: Significa isso que, face à pressão da ideologia dominante, os revolucionários devam reapropriar-se da teoria marxista?

GG: O nosso primeiro dever é reapropriarmo-nos da teoria. Antes de proclamarmos imbecilmente que " Marx, Engels, Lenin estão ultrapassados ", temos de lê-los e descobri-los. A sua imensa obra é terrivelmente mal conhecida e mal compreendida, não apenas pelos "antimarxistas", mas por um bom número de "marxistas" superficiais. Aperceber-nos-emos, então, que os princípios e a metodologia da sua obra não estão ultrapassados. Aliás, como é possível estar "ultrapassada" uma teoria materialista que põe em primeiro plano, na própria teoria, o critério da prática? Como é possível estar "ultrapassada" uma metodologia dialéctica que põe em primeiro plano o papel motor da contradição e da negação e cuja essência é "crítica e revolucionária"?

Descobrir-se-ão, igualmente, jazidas incríveis de "modernidade" nestes grandes pensadores que, indubitavelmente, como todos os cientistas, mostraram algumas incertezas ou enganaram-se neste ou naquele ponto – a investigação científica tem este preço –, mas sempre procuraram descobrir as linhas estratégicas do desenvolvimento social e intelectual, a ponto de anteverem, de forma extraordinária, as necessidades teóricas do nosso século XXI, que tão mal começou. Por isso, o PRCF considera a formação uma prioridade absoluta e, em primeiro lugar, a da juventude comunista.

É evidente que o "marxismo" não consiste numa doutrina fixada para todo o sempre. Temos de fazer com o marxismo-leninismo o que Lenin fez com o marxismo. "Marxista ortodoxo", "marxista sem mais", nas suas próprias palavras, este poderoso pensador de envergadura mundial que foi Lenin fez progredir consideravelmente o marxismo numa série de pontos: análise do imperialismo e do capitalismo monopolista, teoria do socialismo, teoria do Estado, teoria do partido e do centralismo democrático, renovação da epistemologia marxista e muito mais ainda. Lenin, como Engels, acompanhava a investigação científica de ponta da sua época, nomeadamente a Física.

RH: Em torno de que grandes eixos problemáticos se poderá reconstruir um pensamento marxista da modernidade?

GG: Retomando as linhas fundamentais dos princípios marxistas, hoje temos de voltar a trabalhar nas condições do mundo actual e do futuro possível.

A análise do imperialismo: contradições internas na tendência para a "mundialização unipolar", emergência de contradições interimperialistas e carácter exterminista e absolutamente regressivo do sistema...

A economia política do capitalismo: que é hoje o trabalho produtivo? E o parasitismo econômico? Como se estão transformando a classe operária e o proletariado? Em que medida são nacionais ou mundiais? O neoliberalismo é, realmente, um novo "liberalismo" ou uma forma particularmente perversa do velho capitalismo monopolista de Estado, em fase de continentalização?

A filosofia marxista: na véspera de empolgantes revoluções científicas que ameaçam alterar por completo as relações tradicionais entre ciência e filosofia, como relançar o materialismo dialéctico a partir do movimento das ciências?

A teoria política: que relação há entre o mundial, o continental e o local? Que articulação fazer entre socialismo e comunismo? Entre lutas democráticas e lutas revolucionárias? Que formas novas encontrar para o poder do povo, para a vanguarda e sua relação dialéctica com o movimento espontâneo de massas? Que relações estabelecer entre a luta colectiva pelo comunismo e a luta pela desalienação dos indivíduos e das relações entre indivíduos, hoje maciçamente dominados pelo fetichismo do mercado?

O essencial é não deixar cair nenhuma ponta da meada: princípios fundamentais do marxismo e do leninismo, materialismo, dialéctica, ponto de vista de classe a orientar a luta por uma sociedade sem classes realmente universal; empenhamento fraternal e caloroso, mas também reflectido e crítico, nas lutas de massas e na experiência operária e popular, resistência ideológica ao quotidiano, com atenção particular às manipulações mediáticas, cuja essência bélica, anti-social, antinacional e contra-revolucionária é cada vez mais manifesta.

RH: Quais as publicações teóricas e políticas difundidas pelo PRCF?

GG: A Iniciative Communiste publica mensalmente uma "Página de Teoria", com temas já abordados, como o exterminismo, a ditadura do proletariado, a luta de classes, a dialéctica da natureza, a construção europeia, a "ciber-revolução", etc. E a revista teórica EtincelleS já abordou aprofundadamente diferentes assuntos: forma e matéria nos diferentes campos da prática e da teoria, atualidade dos conceitos marxistas em economia (nomeadamente, trabalho produtivo e neoliberalismo), dialéctica da natureza, a questão do "terrorismo", etc.

Ao teorizarmos, o nosso intuito não é "teorizar": a elaboração teórica é parte integrante da luta ideológica e é diretamente uma dimensão da prática militante. Retomando os conceitos de Gramsci – que riqueza, contraditória, a da nossa herança, de Brecht a Luxemburg, de Fidel a Ho Chi Min, de Aragon a Léontiev, de Lukacs a Dimitrov! – de hegemonia cultural e de bloco histórico, queremos contribuir para a crítica radical do novo bloco histórico, constituído nos anos de Reagan, em torno da noção de "antitotalitarismo", com o duplo desígnio de banalizar o nazismo e diabolizar a URSS. Constituído a seguir à "incómoda" batalha de Estalinegrado, onde a URSS, dirigida por Estaline – é um facto! –, esmagou, com os seus próprios meios, a máquina de guerra nazi, o bloco histórico do pós-guerra alicerçava-se, pelo contrário, no antifascismo. O socialismo era, então, mais fácil de ser combatido pela ideologia dominante, tanto mais que o fascismo tinha realmente laços com o capitalismo. Foi, de forma simbólica, esta hegemonia cultural antifascista que Reagan, Thatcher, Mitterrand e Kohl atacaram frontalmente, quando vieram recolher-se juntos, no cemitério alemão de Bitburg, em 1984, se bem me recordo, em plena crise dos euromísseis, a poucos metros dos túmulos de soldados da Wehrmacht.

Combater numa frente única a criminalização do comunismo, escrever o "Livro Negro do Anticomunismo", para contrapor ao fascizante Stéphane Courtois, que pretende agora obter das instâncias europeias um "Nuremberg do Comunismo", devia ser, para os comunistas e outros antifascistas, um ponto de honra ligado, de resto, à auto-defesa e à sobrevivência, pois, se este gênero de nojeira vinga, todos os democratas que não tiverem reagido ao anticomunismo serão apanhados pela reação. "Se não participas no combate, dizia Brecht, participarás na derrota".

Um último ponto: peço desculpa por esta resposta demasiado longa e, contudo, muito incompleta. Como dizia Mme de Sévigné, "faltou-me o tempo para escrever uma carta mais curta". É que eu sou um professor do ensino secundário e não um funcionário da política. Saúdo fraternalmente todos os que me acompanharam até ao fim desta entrevista, quaisquer que sejam os seus eventuais desacordos, já que vibram como eu à bela palavra "rebelião". "Liberdade, igualdade, fraternidade ou morte", como dizia o grande revolucionário francês Marat, dirigindo-se a todos os povos do mundo!

Algumas referências:
Georges Gastaud, Mondialisation Capitaliste et Projet Communiste, Le Temps des Cerises , 1997.
Essai pour la Renaissance Communiste, a encomendar directamente ao autor.
Communisme, Quel Avenir ?, obra colectiva de debates, Le Temps des Cerises, 2002.
Intervenção no Encontro Internacional "Civilização ou Barbárie" , Serpa, Portugal, 2004.
Brochuras do PRCF: "Programme Communiste de Lute", "Manifeste pour la Renaissance Communiste", "Appel au Mouvement Communiste Internacional", "Status du PRCF".

Para receber Initiative Communiste ou EtincelleS (números sobre "L'héritage Communiste", "Ressourcer la Critique Marxiste de l'Economie", "80 ème Anniversaire du PCF", "Dialectique de la Nature") escrever para :
Cercle Lenin de Culture Populaire
199, rue Emile Zola
62800 Liévin
França

[*] Georges Gastaud é filósofo, director político de Initiative Communiste, publicação mensal do Pôle de Renaissance communiste de França e director da revista teórica ÉtincelleS. Remy Herrera é economista, investigador do CNRS.

Tradução de MJS. .
Fonte:  resistir.info


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